sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Dia de Finados

Finados

Sabedoria 3,1-6.9 – Salmo 41 – Romanos 8,14-23 – João 11,21-27

O Dia de Finados está diretamente relacionado à Festa de Todos os Santos. Rezamos e oferecemos sacrifícios para que os nossos falecidos participem da assembléia dos Santos no Céu.

A leitura do Livro da Sabedoria afirma a fé. A morte aparece para os que vivem neste mundo como uma grande desgraça, mas nós sabemos, pela fé cristã, que após a morte começa a nossa verdadeira vida, à imagem e semelhança de Deus. Lembra ainda que “por um breve sofrimento receberão grandes bens. (...) os aceitou como holocausto” (Sabedoria 3,5.6). Isto nos lembra que é pelo caminho da Cruz que se alcança a vida eterna no Céu. Lembra ainda que “os que põem sua confiança no Senhor (...) são dignos de graça e misericórdia” (Sabedoria 3,9). Isto significa que é pela penitência que alcançamos a misericórdia divina. E penitência é arrependimento e propósito de luta contra o pecado.

O Salmo é um canto de plena confiança em Deus que não quer a morte do pecador mas que tenha vida eterna. É uma confissão de desejo de Deus, amado acima de todas as outras realidades. A vida eterna, de fato, é a posse de Deus, para aqueles que desejaram essa posse na terra.

A leitura da Carta aos Romanos lembra a filiação divina que recebemos por meio de Jesus Cristo e o desejo de unir-nos a Deus superando as fraquezas da carne, deste corpo mortal que serve de morada para a nossa alma. Ser-nos-á restaurado como um corpo imperecível a exemplo de Jesus Ressuscitado.

O Evangelho de João é uma parte da narração da ressurreição de Lázaro. Essa ressurreição foi uma mostra do poder de Jesus Cristo sobre a morte, mas Lázaro foi ressuscitado para a vida mortal e depois morreu novamente. Para Marta, a ressurreição que haveria no último dia se apresentava muito longínqua e incapaz de consola-la pela morte de seu irmão. Então Jesus Cristo lhe diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá jamais. Crês isto?” (João 11,26). Então Jesus Cristo traz a Ressurreição mais para perto de nós, pela sua proximidade de nós. A ponto de São Paulo dizer: “Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado no meu corpo (tenho toda a certeza disto), quer pela minha vida quer pela minha morte. Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Filipenses 1,20-21). Tenhamos, pois, toda confiança em Deus que nos dará a vida eterna, se formos fiéis ao Evangelho de Seu Filho.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Todos os Santos

31.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Apocalipse 7,2-4.9-14 – Salmo 23 – Primeira Carta de São João 3,1-3 – Mateus 5,1-12ª

Todos os Santos

A Festa de Todos os Santos inaugura o mês de novembro. É o último mês do Tempo Comum. Neste mês a Igreja reflete sobre as realidades futuras, que se chamam Novíssimos do Homem. Medita sobre o destino de todas as pessoas que deve ser o Céu ou o Inferno. A Festa de Todos os Santos não é a festa dos santos já canonizados, mas a de todos quantos estão ou estarão no Céu, vivendo a vida em comunhão com a Santíssima Trindade. Nesta festa a Igreja se vê antecipadamente participando da glória de Deus. Por isso, a leitura do Apocalipse nos faz contemplar “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do Trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas (vestes nupciais) e traziam palmas nas mãos (simbolizando a Cruz que portaram na terra)” (Apocalipse 7,9). “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram suas roupas no Sangue do Cordeiro” (Apocalipse 7,14). O Salmo os saúda: “É assim a geração dos que procuram o Senhor” (Salmo 23,6).

A Leitura da Carta de São João nos dá o título de filhos de Deus. Na verdade Deus só tem um Filho, que é Jesus Cristo, a Palavra ou a Sabedoria Encarnada. Nós somos chamados filhos de Deus por causa da nossa união ao Filho Unigênito de Deus, pelo Espírito Santo. Por esta razão esta Leitura diz: “Sabemos que, quando Jesus se manifestar seremos semelhantes a Ele porque o veremos como Ele é” (Primeira Carta de São João 3,2). Na Eternidade não há separação entre Jesus e os que Ele uniu a Ele. Não se deve dizer: “depois de Deus, eu amo mais a Virgem Maria”, pois esta já está plenamente na comunhão com Deus. Não há mais separação. Quando dizemos “Virgem Maria, rogai por nós” estamos dizendo “Jesus, que vives em Maria, intercedei por nós!”. “Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus” (Hb 9,24). “Filhinhos meus, isto vos escrevo para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2,1). Jesus é o Intercessor. Cada um de nós só pode interceder pelos irmãos – e mesmo os santos – pela comunhão com Jesus Cristo.

Finalmente temos o Evangelho. Traz as bem-aventuranças como estão no Evangelho de São Mateus. Os pobres em espírito são os que se sentem pobres, mesmo tendo muitas graças e coisas, porque anseiam acima de tudo possuir Deus e não O possuindo ainda nesta terra, sentem-se pobres. Deles é o Reino de Deus porque amam a Deus acima de tudo. Os aflitos são os que desejam Deus e passam por tribulações nesta vida, participando da Cruz do Senhor, sendo cordeiros de Deus com Ele. Serão consolados porque Deus se revelará a eles e o seu sacrifício não será em vão. Os mansos são os que não conquistam as coisas por sua própria força, mas tudo recebem por graça de Deus, como a Terra Prometida foi dada a Israel por Deus e não pela valentia dos israelitas. “João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu” (João 3,27). Possuirão a terra porque Deus dará a Terra Nova aos que vivem da sua graça e não pela sua própria força. Os que tem fome e sede de justiça são os que desejam que o nome de Deus seja santificado e glorificado, como rezamos no Pai-Nosso e no Magnificat de Nossa Senhora. Esta é a justiça do Evangelhos: ser justos para com Deus e dar a primazia em tudo a Ele. Tudo o que recebemos de Deus não é para nós para ser distribuído com os próximos. Assim a misericórdia que recebemos de Deus nos deve fazer misericordiosos com os nossos próximos, e se assim formos o Senhor sempre terá misericórdia de nós. Os que promovem a paz são os que renunciam a si mesmos para amar até os inimigos, como Jesus diz no mesmo Sermão: “Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5,44-48). O filho é aquele que se parece com o Pai e faz as obras do Pai. Os que são perseguidos por causa da justiça são os que são perseguidos por causa da pregação do Evangelho que nos faz ser justos para com Deus. Estes participam diretamente da Cruz do Senhor Jesus. São muitos mártires, “que alvejaram suas vestes no Sangue do Cordeiro” (Apocalipse 7,14). Estes são também os injuriados e perseguidos por causa do Evangelho. Terão a participação nos bens do Senhor Jesus, em sua Ressurreição. A alegria na dor é o grande paradoxo do cristão, pela esperança que o anima. “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos Céus” (Mateus 5,12a).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

30.º Domingo Comum

30.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Jeremias 31,7-9 – Salmo 125 – Hebreus 5,1-6 – Marcos 10,46-52

A Prece antes das Leituras muitas vezes orienta o sentido que se deve tirar das Leituras. No dia de hoje diz: “Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e daí-npos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis”. A fé é aceitar que Deus é veraz em suas revelações. Não duvidar delas. Adão e Eva, no Paraíso, aceitaram a palavra do demônio dizendo que Deus era mentiroso e comeram do fruto da árvore do bem e do mal que Deus havia proibido a eles de comer sob pena de morte. Não acreditaram em Deus para acreditar no demônio. Isto foi o começo do seu pecado. A esperança é a certeza de que o amor de Deus prevalecerá sobre os que Deus ama. Que os sofrimentos deste mundo terão um término e virá depois a vida bem-aventurada. A caridade é a situação final da pessoa humana em relação a Deus. Quando não houver mais necessidade de fé, porque o que foi revelado será manifestado, não houver mais necessidade de esperança porque o que se esperou já foi recebido, permanecerá a caridade, o amor eterno entre Deus e sua criatura. “A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará. A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido. Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade - as três. Porém, a maior delas é a caridade” (Primeira Carta aos Coríntios 13,8-13). A fé, a esperança e a caridade levam a obedecer a Deus na “porta estreita” desta vida para alcançar a vida bem-aventurada, que Deus promete aos fiéis.
Desta forma o tema central das leituras de hoje pode ser a diferença entre a miséria das pessoas nesta vida mortal e a esperança da vida bem-aventurada, sem misérias. “Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte, com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos. Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo” (Filipenses 3,10-14). Como se pode perceber, para São Paulo, o conhecimento de Jesus Cristo é uma experiência da paz no sofrimento totalmente baseada na esperança. É a experiência do Reino de Deus que se manifesta na parábola da semente: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24).
Na Leitura do Livro de Jeremias a “primeira das nações” revela toda a sua miséria: cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes (mulheres que sofrem dor). E Deus promete um alívio para essas misérias, no retorno a Jerusalém terrestre, pois se faz um pai para Israel. O Salmo antecipa a alegria das maravilhas que o Senhor fará pelos seus fiéis com seu canto.
A Leitura da Carta aos Hebreus mostra que todos os bens, até o sacerdócio de Jesus Cristo é graça do Pai e tudo que a pessoa humana tem é recebido por graça divina.
O Evangelho finalmente mostra que a determinação do sofredor na fé em Jesus Cristo o leva ao alívio de suas dores. Nessa determinação o cego chega a dar um pulo, o que é raro ver um cego fazer. Este pulo simboliza o ato de fé que é um pulo no desconhecido pela pessoa humana e um ato de confiança em Deus. Jesus lhe diz: “Vai, a tua fé te curou” (Mc 10,52). O ato de fé é um ato de total confiança em Deus que Se revela. O ato de fé é um ato que atesta que Deus é verdadeiro e que empenha toda a vida daquele que tem fé. Tudo o que faz é confiado na Revelação que Deus lhe fez.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

29.º Domingo Comum

29.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Isaias 53,10-11 – Salmo 32 – Hebreus 4,14-16 – Marcos 10,35-45

Neste Dia Mundial das Missões, a Palavra de Deus atinge em cheio o coração do Evangelho. Não são os grandes dominadores que são recordados pelas gerações posteriores, mas sim, os que serviram com grande perseverança. Quem é maior aos olhos dos homens de hoje? César, Napoleão, Gengis Khan, ou Pasteur, Santos Dumont, Albert Schweitzer, Albert Sabin, Madre Teresa de Calcutá? Quem serviu vale mais do que quem dominou. O Evangelho denuncia que a sede de poder e de ser o maior é uma ilusão e não traz para a humanidade nenhum fruto.
Jesus Cristo sofreu por todos nós. Se repararmos bem não há nenhum bem que não venha com muito sofrimento, muito sacrifício. O poder muitas vezes destrói mais do que constrói. O serviço ao próximo constrói e salva. A Carta aos Hebreus fala do Sumo-Sacerdote que é Jesus Cristo. Foi Ele o que mais serviu à humanidade, pois não só curou doenças dos mortais, mas deu-nos uma vida eterna, a nós que, pelos nossos pecados não merecíamos.
No Evangelho de hoje, Tiago e João, levados pelo pecado, querem ser mais que os outros apóstolos. Quando os outros apóstolos souberam revoltaram-se também. No fundo todos queriam ser os maiores. E quando a gente quer os primeiros lugares, não suportamos os outros que também querem. Jesus, sabendo que os apóstolos tinham outra vocação diz-lhes: “Vós não sabeis o que pedis”. E entra na questão do batismo e do cálice que o Senhor vai beber. Ora esse batismo e esse cálice são a Paixão e a participação nos sofrimentos de Jesus Cristo, do qual eles vão participar. Tiago será o primeiro apóstolo a ser martirizado (cf. Atos 12,2). E Jesus chama os seus a serem realmente construtores, renunciando ao poder – no Reino de Deus é só Deus que tem o poder. Na Missa o povo católico exclama: “Vosso é o Reino, o Poder e a Glória!”. O poder não deve ser desejado pelos cristãos. O serviço, sim. Pois é o serviço que salva e constrói as vidas e não o poder, a não ser que esse poder esteja só nas mãos de Deus e dos que O temem. Jesus mesmo não veio para ser servido, mas para servir ao ponto de dar sua vida para o resgate de muitos. Os que O seguem também devem dar sua vida para a salvação de muitos. Seguir Jesus é renunciar a si mesmo e dar sua vida para que outros tenham vida (cf. Mateus 16,24; João 10,10).

Nossa Senhora Aparecida

Nossa senhora Aparecida – 12 de outubro – 2009

Ester 5,1b-2;7,2b-3 – Salmo 4 – Apocalipse 12,1.5.13a.15.16a – João 2,1-11

A Oração antes das Leituras diz: “Ó Deus todo-poderoso, ao rendermos culto à Imaculada Conceição de Maria...”. Isto significa que a festa de Nossa Senhora Aparecida é, na verdade, uma antecipação da Imaculada Conceição, pois a imagem achada no Rio Paraíba era de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Deste modo, podemos dizer que Maria é Imaculada não apenas por que seria a Mãe de Jesus, mas também em função da nossa salvação, para termos no Corpo de Cristo, que é a Igreja, um membro que jamais foi derrotado pelo poder de satanás. É na devoção a Maria Imaculada que adquirimos também uma capacidade maior de vitória contra o inimigo de nossas almas. Há um combate entre Deus e os anjos rebelados contra Ele e o campo dessa batalha é o coração de cada pessoa humana. Nesse combate Maria é um poderoso auxílio para a vitória de Deus. Não há vitória, porém, sem riscos. O preço da vitória é a Cruz de Jesus Cristo, partilhada por cada cristão. Vemos isso tanto na Primeira como na Segunda Leituras.

Na Primeira Leitura, Ester é alçada à condição de Rainha da Pérsia, no tempo do Rei Assuero. Acontece, porém, por indústria do ministro Amã, um genocídio contra o povo judeu na Pérsia. O Rei Assuero se casara com Ester sem prestar muita atenção na sua origem. O tio de Ester, Mardoqueu, recorre então a Ester para ver se salva o povo judeu. Esta, depois de muitas orações a Deus, se declara judia diante do Rei Assuero e pede a libertação de seu povo. O Rei poderia ter duas alernativas: atender Ester, ou manter o genocídio e nesse caso repudiar Ester, que seria morta com seu povo. Ester se arrisca. E o Rei a atende. O decreto contra os judeus é anulado e o Rei passa a perseguir o ministro Amã, que é enforcado. Essa história pretende mostrar a intercessão de Maria a favor do povo condenado por satanás à perdição eterna. A única sem pecado está a favor dos pecadores, pela sua salvação.

Na Segunda Leitura, aparece uma Mulher vestida de sol. É uma imagem presente nos Evangelhos, seja na Transfiguração de Jesus, como em suas palavras: “Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça” (Mt 13,43). A Mulher tem a lua debaixo dos pés. Isso significa que a Mulher superou o tempo e entrou na eternidade. A lua era um modo de medir o tempo, na Antiguidade. Ela tem também, na cabeça, uma coroa de Doze Estrelas. Essas Doze Estrelas simbolizam seja as doze tribos de Israel, seja os Doze Apóstolos, isto é, a Igreja inteira. A coroa de Maria não é de ouro nem de prata, mas é formada pela Igreja salva com a sua ajuda do poder do pecado e de satanás. Cada um dos filhos de Maria participa de sua coroa. Como podemos ter a certeza de que esta Mulher é Maria? Pela expressão “cetro de ferro”. Esta expressão só ocorre no Salmo 2, uma vez e três vezes no Apocalipse. No Salmo 2:

1. Por que tumultuam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações?

2. Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e contra seu Cristo.

3. Quebremos seu jugo, disseram eles, e sacudamos para longe de nós as suas cadeias!

4. Aquele, porém, que mora nos céus, se ri, o Senhor os reduz ao ridículo.

5. Dirigindo-se a eles em cólera, ele os aterra com o seu furor:

6. Sou eu, diz, quem me sagrei um rei em Sião, minha montanha santa.

7. Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: Tu és meu filho, eu hoje te gerei.

8. Pede-me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo.

9. Tu as governarás com cetro de ferro, tu as pulverizarás como um vaso de argila.

10. Agora, ó reis, compreendei isto; instruí-vos, ó juízes da terra.

11. Servi ao Senhor com respeito e exultai em sua presença; prestai-lhe homenagem com tremor, para que não se irrite e não pereçais quando, em breve, se acender sua cólera. Felizes, entretanto, todos os que nele confiam.

Neste Salmo, como se pode ler, é o Filho gerado por Deus que rege as nações com “cetro de ferro”. Nas passagens do Apocalipse também tem o mesmo sentido.

Ele as regerá com cetro de ferro, como se quebra um vaso de argila,” (Ap 2,27).

Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono” (Ap 12,5).

De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador” (Ap 19,15).

Então a Mulher só pode ser Maria, a Mãe do Filho de Deus. Após a Ascensão de seu Filho, a Mulher trava um combate contra o Dragão. É a luta da Igreja contra o poder das trevas. A Mulher é socorrida pela terra. O que significa esse socorro da “terra”? A “terra” significa as coisas como Deus as fez e as considerou muito boas (cf. Genesis 1,31). As coisas devem ser consideradas como Deus as fez. A deturpação que a pessoa humana faz, acaba sempre em pecado. Pecado de homossexualismo, de poluição da natureza etc... A Verdade está sempre a favor da salvação da pessoa humana. “Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz” (João 18,37).

No Evangelho temos o casamento de Cana da Galiléia e o primeiro sinal de Jesus. Quem são os noivos desse casamento? Não se sabe. São João se apropria de um casamento para mostrar as núpcias de Deus com a humanidade. Estas núpcias tem dois tempos: o “casamento” entre Deus Pai e Maria “cheia de graça”, pela virtude do Espírito Santo, e a doação do Espírito Santo a todos para todos serem Igreja e se tornarem “esposa de Cristo”. A característica de Maria “cheia de graça” deve ser refletida aqui. Graça é um dom do Criador às suas criaturas, mas que continua sendo do Criador, totalmente sob o Seu Poder. Tudo é graça, o nosso corpo, a nossa vida e as coisas de que nos servimos. Tudo está sempre sob o poder de Deus. O pecado acontece quando a pessoa humana toma “posse” das coisas como suas esquecendo sua origem divina. Só Deus é que cria as coisas. A pessoa humana no máximo as transforma. Maria ser “cheia de graça” significa que de nada ela toma posse, porque nela não há pecado. Tudo nela continua a estar totalmente sob o poder de Deus. Daí a sua total disponibilidade a ponto de dizer: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1,38). Em Maria não há a menor resistência à vontade de Deus. Daí, nessa disponibilidade, Maria se “casar” com Deus, em íntima união e gerar Aquele que é o Filho de Deus e o Filho do Homem. Filho de Deus e de Maria (humana). Com a doação do Espírito Santo em virtude da Paixão de Jesus, há o outro momento, em que com o auxílio de Maria, todo cristão se “casa” com seu Deus em um amor único.

A consagração que fazemos de nós a Nossa Senhora é uma consagração a Deus, pois, como vimos, Ela de nada se apossa e tudo que lhe é oferecido é posse plena de Deus. Por isso, ao dar alguém seu corpo e sua vida toda a Maria está dando-a a Deus. E vivendo aquela Palavra de Jesus Cristo que diz: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mateus 16,24). Ou seja, a devoção a Maria nos faz seguir o Evangelho como verdadeiro discípulo. O que se dá a Maria se dá a Deus e não pode ser retomado. Foi consagrado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

28.º Domingo Comum

28.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Sabedoria 7,7-11 – Salmo 89 – Hebreus 4,12-13 – Marcos 10,17-30

Como expressa a Leitura do Livro da Sabedoria, o tema da Palavra de Deus de hoje é a busca da Sabedoria. A Sabedoria é o dom do Espírito Santo que abrange todos os outros. Como se diz na Leitura do Livro da Sabedoria ela vale mais do que o ouro e a prata, os cetros e tronos, mais que a saúde e a beleza, e mais que a luz dos olhos. Todos os bens nos vem com a Sabedoria e de todos os bens, o maior de todos, a vida eterna.

A Leitura da Carta aos Hebreus identifica a Sabedoria com a Palavra de Deus. De fato, entender a Palavra de Deus profundamente e vivê-la é um dom do Espírito santo e corresponde à Sabedoria. Claro é que nem todos na Igreja tem esse dom, mas como a Igreja é um Corpo, aqueles a quem é dada a compreensão mais profunda da Palavra de Deus devem ensiná-la aos outros. Nem a todos o Espírito Santo se comunica diretamente, mas quem recebe um dom deve colocá-lo para a vantagem de todo o Corpo da Igreja. Tudo está nu e descoberto aos olhos da Palavra de Deus, ou seja, da Sabedoria. Quem a possui compreende todas as coisas.

No Evangelho, uma pessoa se dirige a Jesus desejando a vida eterna. O caminho para a vida eterna é a Sabedoria. Jesus é a Sabedoria Encarnada, a Palavra de Deus que se encarnou e habitou entre nós (cf. Jo 1,14). Jesus aponta logo o centro da Sabedoria, que é buscar Aquele que só Ele é bom: Deus. Quem bota o seu bem em Deus está no caminho de adquirir a Sabedoria. Pelo pecado original a pessoa humana deixou de colocar o seu bem em Deus e começou a colocá-lo no seu poder sobre as criaturas. A pessoa que interpela Jesus diz que segue os mandamentos, ou seja, não prejudicava a ninguém. Mas será que fazia o bem a alguém? Quando Jesus lhe aponta o caminho da perfeição, que é colocar o bem em Deus só, o interlocutor de Jesus vai embora cheio de tristeza, porque estava cheio de idolatria e tinha seu verdadeiro bem nas riquezas. Pergunta-se: as riquezas eram dele ou ele que era das riquezas? Se ele não consegue dispor do que é seu é porque sua propriedade o domina e não é ele que tem poder sobre sua propriedade, mas sua propriedade tem poder sobre ele. A causa da tristeza é a condenação do pecado original: a pessoa não consegue viver da graça de Deus e tem o seu bem nas criaturas. Daí Jesus dizer que é muito difícil um rico entrar no Reino dos Céus. O rico, geralmente tem o seu coração, não em Deus, mas nas suas riquezas, que não lhe podem dar vida eterna. A Sabedoria que conduz à vida eterna vale mais do que todas as riquezas do mundo e é só ela que pode dar a Paz ao coração do homem diante da morte e das cruzes desta vida. No entanto, diante da infinita misericórdia de Deus, Jesus Cristo afirma que para Deus tudo é possível, inclusive derramar sua graça sobre os ricos, que podem fazer com suas riquezas muito bem, dar comida a quem tem fome, bebida a quem tem sede e remédios a quem está doente, e instrução a quem é ignorante. A própria Igreja, para sua missão, precisa de recursos e muitos ricos ajudam a Igreja em países abastados e essa ajuda vai para países empobrecidos. Para Deus nada é impossível. O mais importante de todos os bens que alguém pode almejar é a Sabedoria que é a prória habitação de Deus no espírito da pessoa humana.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

27.º Domingo Comum

27.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Genesis 2,18-24 – Salmo 127 – Hebreus 2,9-11 – Marcos 10,2-16

A Palavra de Deus deste domingo tem dois temas interrelacionados, que é a unidade do casal homem-mulher e a humildade.
A Leitura do Livro do Genesis proclama que o casal humano deve ser uma só carne. Isto é uma semelhança divina, pois Deus é Três Pessoas, mas uma só Vida Divina. Assim como o Pai e o Filho se amam, cada um se esvaziando de si para viver verdadeiramente no Outro, e deles procede a Terceira Pessoa, que é o Espírito Santo, Espírito de Verdade e de Unidade de Pessoas, assim também o homem e a mulher devem formar uma unidade por meio do Espírito Santo, Espírito de Unidade de Pessoas. Assim a pessoa humana realiza a imagem e semelhança divina na qual foi criada.
“Então Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher (Gn 1,26-27). (...) Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2,24). Repare neste texto que a semelhança divina não é a razão e a liberdade da pessoa humana, mas ser homem e mulher, uma só carne, semelhança da Santíssima Trindade, Trina e Una.
A Obra de Jesus Redentor é restaurar a pessoa humana na sua condição original, de Paraíso. Por esta razão Jesus, no Evangelho de hoje, rejeita toda separação entre o marido e sua esposa, sob pena de adultério.
A Leitura da Carta aos Hebreus relembra que Jesus se colocou não só abaixo dos anjos, mas também abaixo das pessoas humanas, como servidor delas, sofrendo morte infame. O Evangelho faz suceder à questão da separação do casal, logo o tema das crianças. E Jesus afirma “Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (Mc 10,15). Parece fazer alusão que as separações dos casais se deve sempre a mecanismos de poder e que a criança é o modelo para entrar no Reino, pela própria natureza do Reino de Deus. Nós dizemos na Santa Missa: “Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”. Então o cristão não deve ambicionar o poder sobre os seus irmãos e sim o serviço a eles. O poder que um pai e uma mãe tem sobre os seus filhos é para servir a eles, educando-os e dirigindo sua liberdade para o bem. Jesus ensinou: “O maior dentre vós será vosso servo” (Mt 23,11). A criança é aquela que se sabe dependente do pai e da mãe. Pode estar até fazendo malcriação contra o pai e a mãe, mas se estes se retiram ela vai atrás deles, na sua completa dependência. Assim também nós somos absolutamente dependentes de Deus, como uma criança o é de seus pais. Por esta razão Jesus coloca a criança como paradigma dos que entram no Reino de Deus. A criança sabe que não tem poder e se coloca na dependência daqueles que lhe dão segurança. O pecado é justamente buscar a segurança no poder sobre as criaturas e não se colocar dependente totalmente do Criador.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

26.º Domingo Comum

26.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Números 11,25-29 – Salmo 18 – Tiago 5,1-6 – Marcos 9,37-42.44.46-47

A oração antes das leituras pede a graça a Deus. A graça também são os dons do Espírito Santo e entre estes o dom da profecia, ou seja, falar em nome de Deus.
A tendência ao poder que se seguiu ao pecado original levou a achar que só alguns poderiam falar em nome de Deus. É o que está expresso nas preocupações de Josué na Primeira Leitura e nas preocupações dos discípulos no Evangelho. Na Primeira Leitura, Moisés profetiza sobre o povo cristão no qual todos são chamados a ser profetas. Ainda mais no momento atual em que somos chamados a realizar a Missão Continental. Devemos professar nossa fé sem respeitos humanos e sem a menor timidez. No Evangelho Jesus, que havia dito a Nicodemos que o Espírito sopra onde quer (cf. Jo 3,8), não rejeita uma pessoa que profetiza em seu nome, mas não pertence ao grupo dos Doze discípulos. “Quem não é contra nós é por nós” (Mc 9,40).
Após esse ensinamento Jesus ensina sua presença não só nesse “pregador”, mas também em qualquer necessitado, ou pequenino. No mundo atual muitos escandalizam os pequenos ensinando-lhes o pecado, as drogas, o sexo antes da idade, o turismo sexual e outras aberrações como a violência. Contra todos se insurge o Senhor, afirmando que seria melhor serem afundados no mar com uma pedra de moinho no pescoço (cf. Mc 9,42). E nos previne para, com energia retirarmos de nossa vida qualquer realidade que nos arraste ao pecado.
A Segunda Leitura, da Carta de São Tiago tem um tema diferente. E trata de como todas as coisas que não usarmos para a caridade para promover o próximo voltarão contra nós. A nossa segurança deve estar somente em Deus, como Adão e Eva no Paraíso, e não nas coisas, nos afetos, fama ou prazeres humanos. Todas essas coisas voltarão contra nós. Todos os dons de Deus devem ser usados para fazer bem ao próximo, ao nosso irmão. Aquilo que for recebido de graça e não for dado de graça voltará contra nós no juízo divino. Tornaremos estéreis os dons de Deus? É o que aconteceu com o rico epulão, da parábola contada por Jesus.
“Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico... Até os cães iam lamber-lhe as chagas. Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. E estando ele nos tormentos do inferno, levantou os olhos e viu, ao longe, Abraão e Lázaro no seu seio. Gritou, então: - Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta de seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois sou cruelmente atormentado nestas chamas. Abraão, porém, replicou: - Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, mas Lázaro, males; por isso ele agora aqui é consolado, mas tu estás em tormento. Além de tudo, há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que, os que querem passar daqui para vós, não o podem, nem os de lá passar para cá. O rico disse: - Rogo-te então, pai, que mandes Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para lhes testemunhar, que não aconteça virem também eles parar neste lugar de tormentos. Abraão respondeu: - Eles lá têm Moisés e os profetas; ouçam-nos! O rico replicou: - Não, pai Abraão; mas se for a eles algum dos mortos, arrepender-se-ão. Abraão respondeu-lhe: - Se não ouvirem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite algum dos mortos” (Lucas 16,19-31). Nesta parábola, as festas que o rico dava não lhe renderam pois não eram uma renúncia a si mesmo para fazer bem a outrem, mas era um deleite pessoal. O pobre, que não tinha em que confiar, pois não tinha coisas nem amigos encontrou seu apoio em Deus, que socorre os deserdados. Não substituamos jamais Deus, que é a nossa segurança, nem por coisas nem por pessoas. As criaturas não nos podem dar vida eterna, mas somente Deus, que nos deu essa vida mortal nos dará, se nos apoiarmos somente n’Ele, a vida divina e sem fim.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

25.º Domingo Comum

25.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Sabedoria 2,12.17-20 – Salmo 53 – Tiago 3,16-4,3 – Marcos 9,30-37

“De onde vem as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós?” (Tiago 4,1). Os conflitos que aparecem nas relações entre as pessoas começam no interior das pessoas, onde surgem as paixões e os desejos orgulhosos. Jesus já tinha ensinado: “Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem. Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem” (Marcos 7,20-23). O que rebaixa a natureza humana, para Jesus Cristo, não é como no judaísmo, as coisas exteriores, carne-de-porco, tocar em cadáveres, trabalhos no sábado etc., mas as coisas interiores que procedem de dentro da pessoa. O que aparece na história é apenas o reflexo das almas manchadas dos homens ambiciosos. Este é o tema principal da liturgia de hoje.
As pessoas boas, na sua virtude, provocam o ódio dos maus, como aconteceu a Nosso Senhor Jesus Cristo. A Leitura do Livro da Sabedoria, hoje, é a previsão do ódio dos inimigos de Jesus. Eles O mataram sobre a Cruz. Mas Deus veio em seu auxílio, não durante a Paixão, mas dando algo muito maior do que se o Pai Celestial O livrasse de Sua Paixão. Deu-lhe a vida divina, divinizando Sua natureza humana e dando-lhe toda a glória, o poder na terra e nos Céus (cf. Mt 28,18).
No Evangelho Jesus Cristo está falando de Sua Paixão e Morte. Surdos às suas palavras, seus discípulos ficam discutindo sobre quem deles é o maior. Como a grandeza da pessoa humana não está na concorrência com seus semelhantes, mas em ser plenamente dependente de Deus Jesus lhes diz: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos” (Marcos 9,35). E lhes apresenta uma criança, que sabe ser dependente de seus pais e aceita tranquilamente essa dependência, como o modelo dos que entram na glória de Deus! No caso, o desejo de ser maior do que os outros e cobiçar é que causa as tensões entre as pessoas humanas e assassinatos, como o despeito de Caim em relação a seu irmão Abel (cf. Gn 4). Por isso devemos recordar o Evangelho do domingo anterior em que Jesus diz: “Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á. Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Marcos 8,34-36). Se as pessoas não renunciarem a si mesmas, cheias de orgulho, caminharão para a destruição mútua, para os conflitos de interesses.
O Evangelho quer que sejamos apenas criaturas de Deus, sem nenhuma idolatria, nem de nós mesmos com nossas manias de grandeza. O que ganharemos se ganharmos o mundo inteiro e não conseguirmos que o nosso espírito domine o nosso corpo? O que levaremos desse mundo, de todas as vitórias que alcançarmos, se a morte nos colhe? Não tenhamos pois nenhuma inveja das pessoas mais bem sucedidas do que nós. A verdadeira vitória não são os sucessos que alguém tenha na vida, mas a salvação eterna, que se consegue servindo aos outros. O serviço aos outros nos faz semelhantes a Deus pois nos faz ser “fontes de graças” para nossos irmãos. A graça que vem de Deus passa por nós e beneficia os nossos irmãos. Somos assim canais da graça de Deus, algo como a mão de Deus para os outros, e isso nos dá a comunhão divina, fonte de vida eterna. A vida eterna é a vida divina compartilhada por nós na comunhão com o Filho de Deus por meio do Espírito Santo, que une duas ou mais pessoas numa unidade de amor, como Ele é a Unidade do Pai e do Filho de Deus.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

24.º Domingo Comum

24.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Isaias 50,5-9a – Salmo 114 – Tiago 2,14-18 – Marcos 8,27-35

A Leitura do Livro de Isaias sublinha a absoluta liberdade com que Jesus Cristo se expõe à Paixão, fazendo a vontade salvadora do Pai. O sofrimento é um teste para sabermos se amamos a Deus. O sofrimento é como um questionamento ao amor de Deus. Se Deus ama essa pessoa, por que ela sofre? Agora, se a pessoa que sofre diz: “mesmo sofrendo eu creio no amor do Pai e espero n’Ele”, ela derrota aquele que produziu o sofrimento humano, o demônio ou satanás. Foi o que aconteceu com Jesus Cristo. No meio das torturas que o levaram à morte, seus adversários diziam: “Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!” (Mt 27,42). Se Jesus descesse da Cruz, não teria nos salvado e continuaria mortal. É o drama que pensa salvar-se a si mesmo. Só Deus pode dar a vida eterna à pessoa humana, como deu esta vida mortal. Jesus então nada faz para salvar-se, mas entrega-se à morte, esperando que Aquele que lhe deu a natureza humana no ventre de Maria Santíssima Lhe daria também a ressurreição e a vida gloriosa. Por isso diz-se na Leitura: “o Senhor Deus é o meu Auxiliador; quem é que me vai condenar?”; eu confiei na Sua Providência e Ele, que é Fiel, me dará a vida eterna.

A Leitura da Carta de São Tiago mostra que a fé opera pela caridade (Gl 5,6). Uma fé sem caridade é mera admissão psicológica de alguns eventos sobre Jesus Cristo, mas não é inserção no Seu Mistério e de nada vale. A fé de que se fala no Novo Testamento é sempre uma semelhança de comportamento com Jesus Cristo, que renunciou a si mesmo para que nós tivéssemos a vida eterna. O cristão pode não ser capaz de dar vida eterna aos outros, mas pode renunciar aos bens desta vida e proporcionar-lhes ao seu próximo, sem discriminações e sem considerações de mérito, pois Deus se nos tratasse segundo os nossos méritos, ninguém seria salvo. Ter fé é renunciar a si mesmo como Jesus Cristo fez em relação a nós. Ele renunciou a si mesmo para que nós tivéssemos salvação, e assim fazendo nos fez membros de Seu Corpo, ou seja Ele vive em nós. Ter fé é renunciar a si mesmo e proporcionar os bens que recebemos de graça de Deus e assim como que vivemos no nosso irmão.

O Evangelho nos traz a confissão de fé de São Pedro. E a revelação do tipo de salvação que Jesus viria trazer para a humanidade. Ele não veio como um rei poderoso, por que os verdadeiros inimigos da pessoa humana não são outras pessoas humanas, mas o diabo ou satanás. E esse é derrotado quando a pessoa humana, no meio dos sofrimentos, que são a conseqüência do pecado espera no amor de Deus e nunca descrê de Deus. Jesus Cristo, então ensina essa senda de salvação. Não são as seguranças materiais desta vida que nos salvam, mas a auto-doação de nós mesmos, pois Deus é Amor e é Santíssima Trindade. Na Trindade cada Pessoa renuncia a si mesmo e como que vive na outra Pessoa. O Pai renuncia a Si mesmo e vive no Filho. O Filho renuncia a Si mesmo e vive no Pai. O Espírito Santo é o Espírito que procede do Pai e do Filho e é derramado sobre nós para que também nós tenhamos a vida divina. Se repararmos, Jesus Cristo nos tratou da mesma maneira com que trata o Pai. Ele não se amou. Ao contrário, Ele se imolou para nos amar e nos dar vida plena e divina. Assim como Ele renuncia a si mesmo para viver no Pai, renunciou a Si mesmo para viver em nós e formar conosco uma unidade, que é o Seu Corpo Místico. Se Jesus Cristo vive em nós ter fé é viver segundo o Mistério da Santíssima Trindade, e só vivendo assim seremos semelhantes a Deus e viveremos a vida divina eternamente.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

23.º Domingo Comum

23.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Isaias 35,4-7a – Salmo 145 – Tiago 2,1-5 – Marcos 7,31-37
Mais uma vez a oração antes das leituras – oração coleta – nos dá uma orientação para as leituras ao pedir para os que crêem em Jesus Cristo “a verdadeira liberdade e a herança eterna”. Procuraremos nas leituras esse vínculo.
A Leitura do Livro de Isaias é uma palavra de ânimo para os israelitas evitarem o medo e terem esperança. Os milagres de Jesus realizam estas profecias. “A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes de água” é uma promessa do Espírito Santo, da água viva que sacia toda sede. “Respondeu-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva. A mulher lhe replicou: Senhor, não tens com que tirá-la, e o poço é fundo... donde tens, pois, essa água viva? És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos? Respondeu-lhe Jesus: Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna. A mulher suplicou: Senhor, dá-me desta água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la!” (Jo 4,10-15). O Espírito Santo é também dom de Jesus Cristo, de sua Paixão. “No último dia, que é o principal dia de festa, estava Jesus de pé e clamava: Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva (Zc 14,8; Is 58,11). Dizia isso, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado (sofrido a Paixão e ressuscitado)” (Jo 7,37-39).
No Evangelho, Jesus Cristo cura um surdo que falava com muita dificuldade. Jesus o cura com o “Efatá”. Na linha de esperança colocada pela Leitura do Profeta Isaias, a cura do surdo é um sinal do dom do Espírito Santo. É a capacidade de ouvir a Palavra de Deus e entendê-la e a capacidade de falar, de transmitir a Palavra de Deus. Isso tudo significa o dom da Sabedoria, maior dom do Espírito Santo, que sacia todo desejo humano. O dom da Sabedoria transmite à pessoa humana a Sabedoria de Deus e livra de todos os medos, dando total liberdade, porque livra também do medo da morte que nos escraviza: “Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão” (Hb 2,14-15). Assim, libertando da escravidão confere a plena liberdade, pela certeza da vida eterna, a “herança eterna” da oração coleta.
A Leitura da Carta de São Tiago comenta essa liberdade que leva a uma caridade que não faz diferença entre as pessoas, bonitas ou feias, ricas ou pobres. Segundo a Sabedoria de Deus a pessoa é sempre mais importante que seus acidentes. As características particulares não devem fazer-nos julgar as pessoas e diferenciar os direitos delas. Jesus Cristo aproximou-se dos pecadores e comia com eles, o que lhe causou muitas críticas das “pessoas importantes” de sua sociedade israelita. “Os escribas, do partido dos fariseus,. vendo-o comer com as pessoas de má vida e publicamos, diziam aos seus discípulos: Ele come com os publicamos e com gente de má vida? Ouvindo-os, Jesus replicou: Os sãos não precisam de médico, mas os enfermos; não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2,16-17). Aprendamos de Jesus a não julgar, mas amar a todos sem fazer acepção de pessoas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

22.º Domingo Comum

22.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Deuteronômio 4,1-2,6-8 – Salmo 14 – Tiago 1,17-18.21b-22.27 – Marcos 7,1-8.14-15.21-23

Também hoje a Oração antes das Leituras, chamada Oração Coleta, ilumina o entendimento das leituras. Diz: “Deus do Universo, fonte de todo o bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”. Na Nova Aliança com Deus, estabelecida no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo, Deus se revela a fonte de todo o bem – “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5c) – e a Lei não é mais o centro da relação entre as pessoas humanas e Deus, mas a ação criadora e misericordiosa de Deus é que é este centro. Por esta razão a oração pede para estreitar os laços que unem a criatura com o Criador e que Ele guarde todos os dons concedidos às criaturas para que nada se perca.
A Leitura do Deuteronômio preza o dom da Lei como participação na Sabedoria de Deus. Na verdade a Lei de Deus é sabedoria divina, e Jesus disse que nem um til ou vírgula seriam retirados da Lei (cf. Mt 5,18). Mas na Nova Aliança ela não é o centro da relação entre a pessoa e Deus, mas este centro é a ação criadora de Deus, que continua criando a pessoa humana até ela atingir a perfeição da comunhão divina com a Santíssima Trindade. Disse Jesus: “O meu Pai trabalha sempre e Eu também trabalho” (Jo 5,17). Deus continua a criar a pessoa até ela atingir a sua perfeição. Este é o sentido da Leitura da Carta de São Tiago. Jesus é a Palavra criadora de Deus que se fez homem igual a nós.
Os judeus porém, acrescentaram à Lei de Deus uma série enorme de costumes que eram como um fardo pesado para quem quisesse cumprir a Lei. “Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo” (Mt 23,4). Por isso Jesus diz que “as doutrinas que (os fariseus) ensinam são preceitos humanos” (Mc 7,7). E os acusa de abandonar o mandamento de Deus para seguir preceitos humanos (Mc 7,8). A partir daí Jesus faz uma inversão. Não são as ações exteriores das pessoas que tornam impura a pessoa humana, mas o que vem do seu interior, do seu coração. Pois é do coração que saem as boas e as más intenções das pessoas.
Isto traz uma liberdade enorme para a pessoa humana. Por exemplo, as seitas, interessadas em angariar dinheiro e não em servir a Deus, resgatam do dízimo como era praticado no Antigo Testamento, com a diferença de que o Templo passa a ser qualquer barracão que os falsos pastores dizem ser uma igreja. Isto é uma prática e preceito humano e abusam de Ml 3,10 afirmando que Deus dará prosperidade a quem der o dízimo. Acaba como se Deus devesse às pessoas o sucesso material: isso é o que significa o “Deus é Fiel” que aparece frequentemente associado às pessoas que freqüentam essas seitas; quer dizer “Deus me dará o que me prometeu”. Só que Deus não prometeu nada. O falso pastor que para angariar dinheiro e enganar prometeu que Deus daria prosperidade a essas pessoas.
Outro aspecto da liberdade que a inversão que Jesus faz diz respeito às imagens. Se não é o exterior, mas o interior que decide, a Igreja cristã pode fazer imagens desde que não sejam ídolos nem objetos de superstição. As imagens não tem nenhum poder em si mesmas. São apenas símbolos que nos recordam a presença e a intercessão dos santos de Deus, nossos irmãos. A idolatria está no coração, quando a pessoa ama mais alguma coisa do que a Deus. Por exemplo, quando alguém cria uma “igreja” para ganhar dinheiro está usando o nome de Deus por amor ao dinheiro e este está servindo de ídolo para a pessoa. “Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de aderir a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13). A idolatria está no coração. Não se pode ver de fora. Uma pessoa rezando diante de uma imagem, para um protestante é um idólatra. Pode ser uma pessoa mais piedosa do que o protestante que a acusa. “Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?” (Mt 7,3). A idolatria está no coração e não se pode ver de fora. Por esta razão, a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo não viu mal nas imagens, mas fez delas um catecismo para os que não sabem ler. Antigamente só uma parcela muito pequena da população sabia ler. As imagens ensinaram a muita gente a fé cristã. Ainda é atual o que São Paulo escreveu na Carta aos Gálatas: “Mas, por causa dos falsos irmãos, intrusos – que furtivamente se introduziram entre nós para espionar a liberdade de que gozávamos em Cristo Jesus, a fim de nos escravizar” (Gl 2,4). Esses falsos irmãos são hoje os protestantes, que fazem o papel dos judaizantes do tempo de São Paulo, que queriam de novo retirar a liberdade que os cristãos gozavam e que lhes foi dada por Jesus Cristo. “É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão” (Gálatas 5,1).

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

21.º Domingo Comum

21.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Josué 24,1-2a,15-17.18b – Salmo 33 – Efésios 5,21–32 – João 6,60-69

A Oração antes das leituras de hoje já orienta a interpretação da Liturgia da Palavra. Diz “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo”. Este desejo não pode ser outro do que desejar o próprio Deus. E diz ainda: “para que na instabilidade deste mundo fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”. Estas só se podem achar em Deus. De modo que o tema principal das leituras de hoje é a opção por Deus ou por ídolos que substituem Deus, mas não dão a vida à pessoa humana, pois não são o seu Criador.
Na Leitura do Livro de Josué, este interroga o povo sobre sua opção. “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses (ídolos) a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia, ou aos deuses (ídolos) dos amorreus, em cuja terra habitais” (Js 5,15). E Josué faz sua própria opção: “Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor” (ibid.). E o povo faz também sua opção: “Nós também serviremos ao Senhor, porque Ele é o nosso Deus” (Js 5,18b). Agora a pergunta que se impõe é: o que significa “servir ao Senhor”? No Evangelho Jesus começa a dar a resposta. Diz: “O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida” (Jo 6,63). E continua: “Mas, entre vós há alguns que não crêem” (Jo 6,64). E diante do abandono de muitos dos antigos discípulos, vem a resposta de Simão Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que Tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69).
De modo que fica claro o que é “servir ao Senhor”: em primeiro lugar acreditar n’Ele, mesmo que sua Palavra se nos pareça incrível. Isto é amá-Lo com o entendimento. Perguntaram os fariseus a Jesus: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Jesus respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22,36-37). A fé é a aceitação, pela razão humana do que Deus lhe revela. Em segundo lugar, querer encontrar-se com Ele eternamente, isto é, viver a vida eterna. Isto é amá-Lo com todo o coração. No Evangelho, o coração humano é a sede dos desejos da pessoa humana. “Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt 6,20-21). Se o nosso coração deseja os bens materiais esse é o nosso tesouro, que não dá vida eterna. Se o nosso coração está no amor de Deus esse é também o nosso tesouro. “O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro. O mau, porém, tira coisas más de seu mau tesouro” (Mt 12,35). Cada um dá conforme os tesouros que guarda no coração. “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!” (Mt 5,8). Os que desejam, de fato, Deus, O verão. Pureza de coração é desejar Deus mais do que qualquer outra coisa e organizar todos os desejos do coração em harmonia com esse desejo de ver Deus. Cremos mesmo em Deus? Desejamos ver Deus mais do que qualquer outro desejo? Isto dá uma conformação nova à nossa vida, pois nem a morte nos tirará o nosso tesouro, que é o próprio Deus, nosso Criador. Claro que isto significa absolutizar somente Deus e ter todas as criaturas como relativas, e dar-lhes valor somente na medida em que nos ajudam a realizar o nosso objetivo principal que é ver Deus.
A Leitura da carta aos Efésios de hoje tem um significado diferente. Para entendê-la precisamos de uma ajuda da Primeira Carta aos Coríntios. “Mas quero que saibais que a cabeça de todo homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem, a cabeça de Cristo é Deus” (1Cor 11,3). Cabeça aqui não é em primeiro lugar sinal de superioridade, mas significa a fonte dos frutos de vida que cada um dá. “A cabeça de toda pessoa humana é Cristo” significa que a graça de Deus que dá vida à pessoa humana passa por Cristo. “A cabeça de Cristo é Deus” significa que a carne de Jesus Cristo é ungida pelo Espírito Santo, que procede do Pai, no rio Jordão, para realizar a obra da nossa redenção. O pai é a fonte dos frutos de Jesus Cristo. “A cabeça da mulher é o homem” significa que se o fruto da mulher são os filhos é o homem que a fecunda. A mulher e o homem formam uma unidade de vida e de carne. “Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. ‘Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem’. Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne” (Gn 2,21-24). Por isso o marido deve amar à sua mulher como ao seu próprio corpo. “Aquele que ama sua mulher ama-se a si mesmo” (Ef 5,28). Também a Igreja surge do lado de Jesus Cristo morto (dormindo) como Eva surgiu do lado de Adão: “Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água. O que foi testemunha desse fato o atesta (e o seu testemunho é digno de fé, e ele sabe que diz a verdade), a fim de que vós creiais” (Jo 19,33-35). O sangue e a água que saíram do lado de Jesus significam a Eucaristia e o Batismo, que tornam cada pessoa membro da Igreja. Assim a união do marido e da mulher cristãos é sacramento do amor de Jesus Cristo pela sua Igreja. Cada pessoa pertencente à Igreja é esposa de Jesus Cristo – num esponsal que transcende a questão sexual – e a outra pessoa, o cônjuge, lhe é dado como sinal do Esposo eterno da pessoa humana. Por isso se diz nos casamentos “até que a morte os separe”. Isto significa que na eternidade só Jesus será o esposo de toda pessoa humana e uma pessoa não será mais, na eternidade, esposo de outra pessoa humana.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Assunção de Nossa Senhora

Assunção de Nossa Senhora

Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab – Salmo 44
Primeira Carta aos Coríntios 15,20-27a – Lucas 1,39-56

Maria, a mãe de Deus é a Arca da Aliança do Novo Testamento, pois a Aliança Nova e Eterna é o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Filho. Ao aparecer a Arca da Aliança e logo em seguida o “grande sinal” da Mulher vestida de Sol, temos uma indicação joanina dessa verdade. O Evangelho de hoje tem profundas relações com o Segundo Livro de Samuel, capítulo 6,1-12.
“Davi reuniu de novo todo o escol de Israel, ou seja trinta mil homens, e pôs-se a caminho com toda a sua gente, indo a Baalé de Judá, para trazer dali a arca de Deus, sobre a qual é invocado o nome, o nome do Senhor dos exércitos, que se assenta sobre os querubins. Colocaram a arca de Deus num carro novo, e levaram-na da casa de Abinadab, situada na colina. Oza e Aquio, filhos de Abinadab conduziram o carro novo. (Oza ia) junto da arca de Deus e Aquio marchava diante dela. Davi e toda a casa de Israel dançavam com todo o entusiasmo diante do Senhor, e cantavam acompanhados de harpas e de cítaras, de tamborins, de sistros e de címbalos. Quando chegaram à eira de Nacon, Oza estendeu a mão para a arca do Senhor e susteve-a, porque os bois tinham escorregado. Então a cólera do Senhor se inflamou contra Oza; feriu-o Deus por causa de sua imprudência, e Oza morreu ali mesmo, perto da arca de Deus. Davi contristou-se por ter Deus feito essa brecha, ferindo Oza, e por isso chamou àquele lugar Feres-Oza, nome que traz ainda hoje. Naquele dia, Davi teve medo do Senhor, e disse: Como entrará a arca do Senhor em minha casa? E não quis deixá-la entrar em sua casa, na cidade de Davi; mandou levá-la para a casa de Obed-Edom de Get. Ficou a arca do Senhor três meses na casa de Obed-Edom de Get, e o Senhor abençoou-o com toda a sua família. Foi anunciado ao rei que o Senhor abençoava a casa de Obed-Edom e todos os seus bens por causa da arca de Deus. Foi então Davi e fê-la transportar da casa de Obed-Edom para a cidade de Davi, no meio de grandes regozijos” (2Sm 6,1-12).
Vejamos os pontos de contato:
a) Oza morre porque ousou tocar a Arca da Aliança; isso é um sinal da virgindade perpétua de Maria, que não podia ser tocada por José, ela a Arca da Nova Aliança, muito superior à antiga Aliança.
b) Davi dança diante da Arca com todo o entusiasmo. O Cântico de Maria, o famoso Magnificat é um paralelo dessa dança, e mostra todo o entusiamo da Mãe de Deus pela salvação oferecida aos pobres, aos que não colocam sua confiança em seus próprios poderes, mas se colocam na dependência de Deus.
c) Davi diz: “Como entrará a arca do Senhor em minha casa?” (2Sm 6,9). Isabel diz: “Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar?” (Lc 1,43). Ambos se consideram indignos de receber a Arca da Aliança de Deus.
d) Maria se define como a “Serva do Senhor” (Lc 1,38), que em hebraico é “Obed-Adon”. A Arca da Antiga Aliança fica na casa de Obed-Edom, num pequeno trocadilho que lembra o paralelo entre as duas passagens.
e) A Arca da Antiga Aliança fica três meses na casa de Obed-Edom. Maria fica também três meses na casa de Isabel.
A Mulher que aparece na Leitura do Apocalipse só pode ser Maria Santíssima, a Mãe de Jesus. Diz-se: “E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro” (Lc 1,5). Essa expressão, em todo o Antigo Testamento só aparece no Salmo 2,9, identificado com o Filho que Deus gera (Salmo 2,7-8). “Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me; dar-te-ei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo. Tu as governarás com cetro de ferro, tu as pulverizarás como um vaso de argila” (Sl 2,7-9). O cetro de ferro em oposição ao vaso de argila mostra o poder do Messias e a fraqueza de seus adversários. Esta expressão “cetro de ferro” só volta a aprecer na Bíblia no Livro do Apocalipse, em três passagens:
“Ele as regerá com cetro de ferro, como se quebra um vaso de argila,” (Ap 2,27).
“Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono” (Ap 12,5).
“De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador” (Ap 19,15).
Em todas as três passagens, refere-se ao poder do Messias, do Filho de Deus e de Maria.
Entre Maria e Deus não há a menor separação. Ela é a “cheia de graça” (Lc 1,28). Isto é, Maria não se apossa de nada que Deus lhe deu, tudo, absolutamente tudo que há em Maria continua sendo posse absoluta de Deus, e ela não lhe impõe a menor resistência. Por isso ela é também a Imaculada Conceição, pois não tem marca do pecado original, pretensões de poder humano nem se apóia em criatura alguma, mas somente em Deus. Por isso ela é a pobre e humilde, dependente de Deus que é elevada por Deus. A Assunção de Maria Santíssima é a realização do que ela mesma cantou em seu Cântico na casa de Isabel. O Senhor eleva os humildes. E a elevou logo em corpo e alma à glória celeste, ela, que não tinha a menor marca de pecado. A Assunção de Maria antecipa o que está afirmado na Leitura da Primeira Carta aos Coríntios. Lá se diz: “Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: em primeiro lugar Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda” (1Cor 15,22-23). Se, como os protestantes, não crêssemos no ministério petrino, que é confirmar os irmãos na fé, teríamos somente a Bíblia e não creríamos na Assunção de Maria Santíssima, como eles não crêem. Disse Jesus Cristo: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,31-32). Maria venceu a morte e isso é para nós, seus filhos, causa de grande alegria! Ela está, em corpo e alma, na plena comunhão de vida com seu Filho no Céu. Jesus vive para sempre em Maria e Maria vive para sempre em Jesus.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

19.º Domingo Comum

19.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Primeiro Livro dos Reis 19,4-8 – Salmo 33 – Efésios 4,30–5,2 – João 6,41-51

Na Leitura do Primeiro Livro dos Reis encontramos Elias desanimado e pedindo a morte. Mas Deus tem outros planos para Elias. Ele deve dar testemunho de Javé. E Deus o conduz ao Horeb, o mesmo que o Sinai, o monte onde foi celebrada a Aliança por meio de Moisés.
No Evangelho, os contemporâneos de Jesus não compreendem que, se conhecem os pais de Jesus - Ele era tido como filho natural de José - como diz Jesus que desceu do Céu. Não podiam ainda entender, como nós, a Encarnação da Palavra de Deus, do Verbo Divino, do Lógos.
O centro da Palavra deste domingo é “Ninguém pode vir a Mim se o Pai que me enviou não o atrai” (Jo 6,44). Isto está diretamente ligado ao Primeiro Mandamento da Lei de Deus, que diz que Deus deve ser amado com todas as potências da alma do homem. “Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Respondeu Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito (Dt 6,5)” (Mt 22,36-37). Isto é, nenhum ídolo, nenhuma criatura poderá ser mais amada do que Deus, nosso Criador. Se o nosso coração está voltado para as criaturas e elas tomam no nosso coração o primeiro lugar, que é devido só a Deus, não seremos capazes de perceber em Jesus Cristo o Enviado pelo Pai. E não “iremos a Ele” (Jo 6,44) ou seja, não daremos nossa vida como Ele deu a Sua. Não perceberemos a essência do Evangelho, que é tornarmo-nos semelhantes a Deus por um amor que é o dom total de nós mesmos. Somos imitadores de Deus (Ef 5,1). E Jesus não viverá em nós. Não será Ele o nosso alimento e a razão de toda nossa esperança. Alimentar-se de Jesus não é só receber a hóstia consagrada, mas viver d’Ele, esperar n’Ele e descansar o nosso espírito n’Ele, e como Ele, dando a nossa vida “em oblação e sacrifício de suave odor” (Ef 5,2).
Por esta razão também, São Paulo, no trecho da Carta aos Efésios lido hoje, nos diz para não contristarmos o Espírito de Deus, com o qual fomos marcados como com um selo para o dia da libertação. Contristar o Espírito de Deus é não recebê-lO, é não se tornar semelhante a Jesus Cristo, com o qual Ele nos une em um só corpo. O amor de Deus, a dependência do nosso ser só a Deus, e a libertação da dependência às criaturas é que nos liberta. As criaturas nos escravizam porque passam e o medo de perdê-las nos atemoriza. Todas as criaturas passam. Mas Deus não passa. A dependência de Deus tira até o nosso temor da morte, pois sabemos que Ele nos dá vida eterna. Por isso, São Paulo nos convida a abandonar “toda amargura, irritação, cólera, gritaria, injúrias, e toda maldade” (Ef 4,31) que são manifestações contrárias à Paz de Jesus Cristo e sinais de que se ama mais às criaturas do que a Deus. Se amarmos mesmo mais a Deus do que a todas essas coisas somos atraídos por Deus e escutamos o Pai e vamos a Jesus e temos a sua Paz. Essas atitudes serão banidas do nosso comportamento naturalmente. E viveremos no amor à semelhança de Jesus Cristo, dando a nossa vida pelos nossos irmãos (cf. Ef 5,2).
Na leitura do Primeiro Livro dos Reis, a figura de Elias nos anima, pois sabemos que Elias é um dos maiores profetas do Antigo Testamento e teve, também ele, momentos de fraqueza e desânimo. Deus, porém, o conduz, pois Elias se deixa atrair por Deus, que era a razão de sua vida. Elias se alimentou do Deus verdadeiro. Se às vezes desanimamos diante das cruzes de nossa existência, como Elias, nunca Deus deixe de atrair-nos a Si. Nunca amemos mais as criaturas do que a Deus. E ouçamos o seu anjo a nos dizer: “Levanta-te e come! Ainda tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19,7).
Seja a Verdade Eterna – Jesus Cristo é a Verdade – a alimentar de sentido e razões a nossa vida e a nossa morte. Só assim as nossas comunhões eucarísticas serão verdadeiras. Jesus Cristo é a Vida da nossa vida! Só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida! (Jo 14,6).

18.º Domingo Comum

18.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Êxodo 16,2-4.12-15 – Salmo 77 – Efésios 4,17.20-24 – João 6,24-35

Na Leitura do Livro do Êxodo temos um exemplo do povo de Israel que não sabe o que quer. Quando estava no Egito clamava a Deus por libertação da escravidão. Deus ouviu o clamor do seu povo e o libertou. “O Senhor disse (a Moisés): ‘Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel, lá onde habitam os cananeus, os hiteus, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus’” (Ex 3,7-8). Agora, porém, atravessando o deserto rumo à terra fértil não aceita os sacrifícios da caminhada e deseja voltar para a escravidão e exagera como se quando eram escravos teriam comida em abundância, “panelas de carne e comíamos pão com fartura” (Ex 16,3). Quando temos um sofrimento e recordamos uma situação em que aquele sofrimento não era tão agudo costumamos exagerar como se tudo fosse ótimo na situação anterior. Deus, que cuida do seu povo, proporciona a eles as codornizes (carne) e o maná (o pão; em hebraico, maná significa ‘Que é isto?’).
No Evangelho, Jesus nega que o maná é o verdadeiro pão do Céu. A pessoa humana foi criada à imagem de Deus, que é Espírito, é espiritual também e o Pão descido do Céu, que o Pai dá é um pão espiritual. O maná era apenas um alimento corporal. Jesus diz que é Ele mesmo o Pão do Céu que o Pai Eterno nos dá (cf. Jo 6,35).
Jesus diz ao povo que O procurava não por causa de sinais do Céu, mas porque comeram o pão do corpo e ficaram saciados, que procurem o pão que permanece para a vida eterna (cf. Jo 6,27). E promete dar esse pão que permanece para a vida eterna, porque o Pai o marcou com o seu selo. O selo do Pai é o Espírito Santo, que realiza a nossa unidade com Deus pela união de vida com Jesus Cristo. Perguntam o que devem fazer para realizar as obras de Deus. Jesus responde que a obra de Deus é que creiam nAquele que Deus enviou, que é o próprio Jesus. Crer em Jesus é não somente admitir que Ele é o Filho de Deus e da Virgem Maria, que Ele padeceu e morreu na Cruz e depois, ao terceiro dia, ressuscitou e subiu ao Céu onde está à direita do Pai e de onde virá a julgar os vivos e os mortos. Crer em Jesus é acreditar que um motivo para viver, é também um motivo para morrer. Isto é que dá sentido às nossas vidas. É o alimento espiritual que Ele nos dá. Um grande amor pelo qual vale a pena dar a vida. Perguntemo-nos a nós mesmos: temos um grande amor divino pelo qual queiramos morrer como Jesus morreu consumido de amor pelo Pai e por nós? A nossa vida já tem um sentido cristão? Um cristão não vive porque um dia nasceu e os dias foram se sucedendo... Um cristão vive na esperança de um grande encontro com o seu Criador Divino, que se dá numa morte por amor, numa vida que recebida de graça é dada também de graça (cf. Mt 10,8c). Jesus dá um sentido à nossa vida porque dá um sentido para a nossa morte. Faz da morte uma doação total de si mesmo, que nos diviniza, porque significa a doação total de nós mesmos, por amor, e Deus é Amor (1Jo 4,8.16).
Portanto, na Carta aos Efésios, São Paulo exorta a que não continuemos a viver como os pagãos, “cuja inteligência os leva para o nada”. Os pagãos vivem na carne e para a carne. O cristão nasceu do Espírito. “Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus. Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,1-8).
O pagão vive para a carne e se preocupa com o bem estar da carne, do corpo. Não tem um motivo para dar sua vida, não vive do Espírito e não tem esperança de vida eterna na comunhão divina, não crê na divinização da natureza humana.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

17.º Domingo Comum

17.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Segundo Livro dos Reis 4,42-44 – Salmo 144 – Efésios 4,1-6 – João 6,1-15

Os bens temporais devem nos conduzir aos bens eternos, segundo a oração que fizemos antes das leituras: “conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam”. No Evangelho de hoje vemos que a multidão segue Jesus não por causa da vida eterna, mas “porque via os sinais que Ele operava a favor dos doentes”, ou seja, como nosso povo até hoje, buscava mais a cura do corpo do que a da alma. Jesus quer conduzir as pessoas dessa busca de bens temporais para começarem a buscar os bens eternos. O grande bem eterno que o Pai nos legou foi o próprio Jesus, a Segunda Pessoa da Trindade Santíssima o qual só podemos receber se recebemos também o outro dom do Pai, o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
A Páscoa judaica estava próxima. Jesus ensaia a sua entrega total, multiplicando os pães, como anúncio da Sua entrega na Eucaristia, que acontecerá num contexto pascal. Para isso provoca um de seus discípulos, Felipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?”. O discípulo, nada entendendo responde em termos financeiros. André, outro discípulo apresenta um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas acha, sensatamente, que isso é muito pouco para tanta gente. Só que as medidas de Deus não são as nossas. Jesus aceita, em ação de graças, aquele pouco. E o pouco se torna mais do que suficiente. Este é um pensamento muito importante na vivência do Evangelho. Os dons de Deus podem parecer insuficientes. Mas se os acolhemos e agradecemos a Deus, eles se revelam mais do que suficientes. Assim é com as nossas capacidades, que se acolhidas em ação de graças a Deus se desenvolvem e se tornam grandes. A semente divina em nós pode produzir muito fruto se as acolhemos em ação de graças e não as desvalorizamos de saída. Isto é também uma manifestação de fé em Deus: a confiança de que o que Ele nos dá é sempre suficiente, mesmo que pareça pouca coisa. A seguir Jesus manda recolher o que sobrou. Não devemos desperdiçar nada dos dons de Deus. Tudo pode concorrer para o nosso bem e para a glória de Deus, que é a nossa salvação. Diante do prodígio, Jesus percebe que eles não o vêem somente como Profeta, mas querem fazer d’Ele um rei. Ao perceber isso, Jesus se retira sozinho no monte. Tudo que Jesus recebe vem do Pai (cf. Jo 3,27). Nada Ele recebe dos homens em si mesmos. Após a sua ressurreição, Jesus dirá: “Todo o poder me foi dado no Céu e na terra” (Mt 28,18). Tal poder lhe foi dado pelo Pai e não pelos homens. Assim também o cristão deve atribuir a Deus tudo o que recebe. Deus é a fonte de tudo o que existe. E assim viver em ação de graças. Escreve São Paulo: “Vivei sempre contentes. Orai sem cessar. Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo” (1Ts 5,16-18).
Esta distribuição de pães é um sinal de que Jesus daria a Si mesmo em alimento em outra Páscoa, ao dar a Eucaristia e ao morrer por nós na Cruz. Jesus é a Palavra de Deus que se fez carne (cf. Jo 1,14). Alimentar-se de Jesus não é só receber a Eucaristia em nossas bocas, mas viver da Palavra Criadora de Deus, nela esperar, mesmo que todas as circunstâncias de nossa vida estejam em oposição à nossa felicidade. Jesus é a misericórdia e a vida eterna. Ele mesmo Se definiu: “Eu sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11,25). E também: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Não se tem fé em Jesus se não se espera na sua Palavra e não se tenta viver de acordo com ela.
A Leitura da Carta aos Efésios é uma exortação de São Paulo a viver de acordo com a vocação cristã. Exorta à humildade e à mansidão. À unidade e à paz. A mansidão é exatamente aquela virtude pela qual não queremos usurpar nada de ninguém, mas tudo receber pela graça de Deus. A humildade é de nada se apossar e considerar todas as coisas, até a nossa vida e o nosso corpo como graça de Deus. A Paz vem da confiança em que o desígnio de Deus de nos dar a vida divina é mais forte do que a própria morte. Por isso, Jesus, ao apresentar-se ressuscitado aos seus discípulos, em primeiro lugar lhes deseja a paz, até repetindo: “A paz esteja convosco!” (cf. Jo 20,19-21). A unidade vem, como a própria Leitura afirma de que há um só Deus para todas as pessoas. Assim como Deus é Unidade das Três Pessoas Divinas, criando a pessoa humana à Sua Imagem, também a criou na unidade, “numa só carne” (cf. Gn1,26; 2,21-24).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

16.º Domingo Comum

16.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Jeremias 23,1-6 – Salmo 22 – Efésios 2,13-18 – Marcos 6,30-34

O Evangelho traz o que aconteceu depois de os discípulos voltarem da missão a que Jesus os tinha enviado em duplas. Jesus quer dar um descanso a seus discípulos. Eles, diante da multidão que os requisitava não tinham tempo nem para comer. Jesus os guia então a um lugar deserto e afastado. Mas, percebendo para onde iam, a multidão chegou lá antes mesmo dos discípulos e sentindo a sede que a multidão tinha Jesus sente uma grande compaixão dessa gente e põe-se a ensinar-lhes muitas coisas. Aqui vemos que a missão apostólica não admite tréguas, pois é um combate contra o poder das trevas que age sempre sobre os homens pecadores, que, ao mesmo tempo tem sede de salvação. Os discípulos não tem tempo nem para comer. Mas o alimento corporal fica em segundo plano. A sede da multidão é de um alimento espiritual, que Jesus lhes dá. E o próprio Jesus explica que quando Ele está presente seus discípulos não podem jejuar: Ele é o seu alimento. “Eles então lhe disseram: Os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam com freqüência e fazem longas orações, mas os teus comem e bebem... Jesus respondeu-lhes: Porventura podeis vós obrigar a jejuar os amigos do esposo, enquanto o esposo está com eles? Virão dias em que o esposo lhes será tirado; então jejuarão” (Lc 5,33-35). O esposo lhes será tirado quando morrer e for sepultado. Após a sua ressurreição lhes dirá: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). E nunca mais estará ausente do meio dos seus discípulos. Jesus é o alimento de vida eterna, sem o qual verdadeiramente se jejua. Então percebe-se que a missão apostólica não admite repouso e a salvação das almas é uma tarefa de eternidade. “Jesus replicou-lhe: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). São Paulo tem trechos muito comoventes sobre essa dedicação. Eis um deles: “Por isso não desanimamos deste ministério que nos foi conferido por misericórdia. Afastamos de nós todo procedimento fingido e vergonhoso. Não andamos com astúcia, nem falsificamos a palavra de Deus. Pela manifestação da verdade nós nos recomendamos à consciência de todos os homens, diante de Deus. Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho, onde resplandece a glória de Cristo, que é a imagem de Deus. De fato, não nos pregamos, a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor. Quanto a nós, consideramo-nos servos vossos por amor de Jesus. Porque Deus que disse: Das trevas brilhe a luz, é também aquele que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós. Em tudo somos oprimidos, mas não sucumbimos. Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos. Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados. Somos abatidos, mas não somos destruídos. Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida” (2Cor 4,1-12).
A fraqueza humana, porém, é grande. É o tema da Leitura do Profeta Jeremias. Deus censura os pastores que deixaram as suas ovelhas dispersarem-se por falta de cuidados delas e promete que Ele mesmo as reunirá. Promete novos pastores que as apascentarão de forma agradável a Deus e promete um descendente de Davi que reinará sabiamente sobre elas, que é o Senhor Jesus Cristo, a Justiça de Deus, que é a Misericórdia para com os pecadores penitentes. No povo cristão, infelizmente, muitos pastores visam outras metas que não é a vida das ovelhas. São “pastores que apascentam a si mesmos”, como dizia Santo Agostinho, e não dão a vida pelas ovelhas.
Os pastores autênticos da Santa Igreja são os que acolhem o Espírito Santo, o mesmo Espírito que levou Jesus a dar sua vida pelas suas ovelhas: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim, como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 14-16).
A Leitura da Carta aos Efésios designa a missão de Jesus, que continua nos pastores fiéis a Ele, que estabelecem a paz e a unidade, unindo as ovelhas num só Corpo, que é o Corpo de Jesus Cristo. E isto o fazem acolhendo a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não são os pastores que agem, mas Jesus Cristo, por meio deles. E buscam as ovelhas que estão longe e as ovelhas que estão perto. Assim difundem o Espírito de Jesus Cristo pelo qual as ovelhas tem acesso ao Pai e à Vida Eterna.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

15.º Domingo Comum

15.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Amós 7,12-15 – Salmo 84 – Efésios 1,3-14 – Marcos 6,7-13

O tema da Palavra de Deus, hoje é a missão de anunciar e testemunhar o Evangelho. A Oração antes das leituras já nos orienta nesse sentido, ao afirmar que Deus “mostra a luz da verdade aos que erram para retomarem o bom caminho”. O Evangelho é a Verdade sobre Deus e sobre a pessoa humana. Pelo pecado, o mundo inteiro ficou sob o poder do maligno (1Jo 5,19). Há, portanto, uma oposição entre o espírito do mundo e o Evangelho, uma dificuldade em aceitar o Evangelho, por parte do mundo. Ao pecar a pessoa humana perdeu a percepção de sua dependência absoluta de Deus e colocou sua confiança nas criaturas, no dinheiro, no poder, na fama e no prestígio, no amor que as criaturas lhe devotam e não mais em Deus. Converteu-se às criaturas e criou uma aversão a Deus. Por isso, na Leitura do Profeta Amós, este é rejeitado por protestar contra um culto a Deus que visava mais o lucro material do que Deus mesmo.
O Salmo é uma oração de pedido de salvação e de conversão a Deus, como fonte da vida da pessoa humana. Coloca Deus na fonte da esperança humana. Deve ser repetido por todo aquele que quer por a sua confiança em Deus.
A Leitura da Carta aos Efésios traz o plano de Deus para os que põem a sua esperança em Jesus Cristo (Ef 1,12), o Filho de Deus, que veio para reconduzir os homens das criaturas para Deus, numa aversão às criaturas e uma conversão para Deus.
No Evangelho segundo Marcos, Jesus Cristo envia seus discípulos dois a dois, aos pares, como sinal de comunhão de vida. Dois são o Pai e o Filho, que com o Espírito Santo, Espírito de Unidade, são um só Deus. Assim os discípulos são mandados aos pares, para que testemunhem o amor pelo Espírito Santo e assim testemunhem o amor da Santíssima Trindade: dois discípulos tornados um só pelo Espírito Santo. E Jesus dá-lhes poder sobre os espíritos impuros. Os espíritos impuros são os espíritos de toda pessoa humana que coloca sua confiança nas criaturas e não em Deus, sua fonte verdadeira. Tal poder é o poder que leva as pessoas a se converter das criaturas a Deus, a fonte da existência e da vida das pessoas humanas. Jesus Cristo lhes recomenda que nada levem para o caminho, pois devem testemunhar que Deus basta às pessoas humanas e não devem apoiar-se nas criaturas. Também diz para não mudarem de hospedagem para não devorarem os bens daqueles aos quais são enviados (cf. Mt 23,14 e Lc 20,47), mas usarem de parcimônia. Diz para se forem rejeitados, até a poeira que se apegou aos seus pés seja sacudida e nada levarem seja do que for que pertença, numa liberdade total em relação a todos os bens materiais. Os doze partiram em seis duplas e pregavam a conversão das criaturas a Deus, curando numerosos doentes. Essa cura de doentes é uma expressão da cura espiritual das criaturas a Deus que é muito mais importante. A cura das doenças do corpo não garante a salvação, mas a conversão dos ídolos para Deus garante a salvação eterna e uma vida para sempre junto de Deus.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

14.º Domingo Comum

14.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Ez 2,2-5 – Salmo 122 – 2.ª Coríntios 12,7-10 – Marcos 6,1-6

O tema das leituras de hoje é a recepção que se dá ao profeta, isto é, àquele pelo qual é Deus mesmo que fala. O profeta não é necessariamente alguém que prediz o futuro, como muita gente pensa, mas aquele que traz a Palavra do próprio Deus. Muitas vezes o profeta é rejeitado, porque a Palavra de Deus vai contra os planos humanos e aquele que traz essa Palavra tão incômoda carrega sobre si a rejeição que as pessoas devotam à própria Palavra de Deus.
Na Leitura da Profecia de Ezequiel repete-se por três vezes se chama ao povo de Israel de bando de rebeldes. É Deus que denuncia que o povo rejeita a sua Palavra. A rebeldia leva as pessoas ao pecado, a se afastarem de Deus. A atitude contrária é a ação de graças diante da Palavra criadora de Deus, que tudo criou e é verdadeira e nos conduz para o bem. Em toda celebração eucarística é lembrada a ação de graças como atitude de salvação. O sacerdote diz: “Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças sempre e em todo lugar, Senhor Pai santo, Deus eterno e todo poderoso”. Os pensamentos das pessoas distam dos pensamentos de Deus como o Céu dista da terra (Is 55,9). Mas o profeta deve falar independentemente de ser escutado ou não, pois a Palavra de Deus deve sempre advertir as pessoas sobre o caminho da verdade. Por isso se diz: “Quer te escutem, quer não – pois são um bando de rebeldes – ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (Ez 2,5). Muitos profetas foram perseguidos a princípio e só depois respeitados e ouvidos, confirmando essa palavra “ficarão sabendo que houve entre eles um profeta”. É o caso de Jeremias, por exemplo. No Evangelho, Jesus, fiel à tradição profética de Israel, é rejeitado pelos de sua terra, de Nazaré, que se recusavam a ver n’Ele alguém diverso do carpinteiro que tinham conhecido durante a vida oculta de Jesus. Identificam Jesus como o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão. Segundo Mt 27,56, Mc 15,40 e Lc 24,10, Tiago e José eram filhos de outra Maria, que não é Maria Santíssima. Segundo At 1,13, Judas era irmão de Tiago, ou seja, filho da mesma Maria. De modo que esses “irmãos de Jesus” não eram filhos de Maria Santíssima, a mãe de Jesus, mas parentes próximos. Maria é sempre Virgem, antes durante e depois de ter Jesus Cristo, a esposa de Deus, figura da Igreja.
Na Leitura da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios revela-se que Deus se serve de homens fracos para seus profetas. Não é do feitio de Deus o triunfalismo ou servir-se de pessoas admiradas pela sociedade, pelos seus dotes, riqueza, inteligência ou força física. Isto para que se revele uma força não humana no seu profeta, uma força que vem de Deus. Assim o profeta conclui: “pois quando eu me sinto fraco, é então que sou forte” (2Cor 12,10). O profeta é forte de uma força que lhe é dada do Alto, sobre a qual ele não tem poder. É Deus que o sustenta. É Deus que fala por meio dele e o profeta é um instrumento de Deus, chamado por Ele para as obras da misericórdia que Deus quer ter em relação ao seu povo.
Todo aquele que ensina ao povo a Palavra de Deus pode ser comparado aos profetas. Deus não escolhe os fortes, mas os simples, que são capazes de obedecer-Lhe e ser instrumentos dóceis em suas mãos. Os que se apóiam em recursos humanos tendem ao orgulho e auto-suficiência e não são dóceis ao Senhor. Os humildes é que servem melhor aos planos de Deus, como Maria Santíssima, da qual o Senhor viu a humildade (f. Lc 1,48). Por isso os que servem ao Senhor no ministério da Palavra como os catequistas e outros podem ter fraquezas como São Paulo, mas não devem ter timidez e devem falar a Palavra do Senhor sem respeito humano, pois sua força é Deus mesmo que fala pela sua boca. “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na sua glória, na glória de seu Pai e dos santos anjos” (Lc 9,26).