quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

4.º Domingo Comum

QUARTo Domingo do Tempo Comum – Ano C

Jeremias 1,4-5.17-19 – Salmo 70 – Primeira Carta aos Coríntios 12,31-13,13 – Lucas 4,21-30

A Oração antes das Leituras, mais uma vez nos dá uma sugestão do tema das Leituras: “Concedei-nos, Senhor nosso Deus, adorar-vos de todo o coração, e amar todas as pessoas com verdadeira caridade”. O tema de hoje é o amor a Deus, nosso Criador e o amor à Verdade. Jesus disse: “Eu sou a Verdade” (João 14,6).

A Leitura de Jeremias traz o amor de Deus por Jeremias profeta, antes até de formá-lo no ventre materno. O amor de Deus elimina o nosso medo. De fato, se há a ressurreição para os que estão na graça de Deus para que ter medo, até da morte? Deus está do lado do seu profeta, de modo que os inimigos não prevalecerão. Também para São Paulo: “Que diremos depois disso? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31).

A vida cristã se caracteriza antes de tudo por uma enorme ação de graças a Deus Criador e isto é o que afirma o Salmo de hoje. Estar em ação de graças a Deus é publicar suas graças imensas e incontáveis.

A Leitura da Primeira Carta aos Coríntios traz o famoso Hino da Caridade, que permanece até na eternidade, quando não mais haverá fé nem esperança. Isto porque Deus é Amor. E a vida eterna é viver a vida de Deus. As características da Caridade estão todas elencadas nessa Leitura. Merece uma meditação cuidadosa. A caridade está em profunda relação com a Paz de Cristo. Quem não perde a Paz de Cristo não perde a caridade. Quem perde a Paz de Cristo logo perde também a caridade e se irrita contra o próximo, ficando com raiva dele e até invejando-o. Pecamos, geralmente, quando perdemos a Paz de Cristo. Se conservarmos a Paz de Cristo venceremos muitas tentações, porque para o cristão só Deus é Absoluto e a relação com Ele é que deve ser protegida de modo especial. Tudo o mais é relativo, até a morte é relativa.

No Evangelho, Jesus fala a Verdade mas os nazarenos não aceitam a verdade que está nas Escrituras. Parece que ela os ofende. No entanto, o amor à Verdade é um critério para encontrar Jesus Cristo: “Disse Pilatos: Acaso sou eu judeu? A tua nação e os sumos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste? Respondeu Jesus: O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo. Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz. Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?...” (João 18,35-38). Quem busca com sinceridade a Verdade, acaba encontrando Jesus Cristo. Acontece que esta não é virtude de muitas pessoas. Até muitos católicos não buscam a verdade, mas preferem fugir de Jesus Cristo e se refugiar em superstições, fazendo até dos objetos santos da fé e até dos sacramentos superstições para objetivos terrenos de saúde e sorte. Deus não precisa de água benta para amar ninguém. E quantos põem toda a confiança em água benta? E fazem das imagens objetos de sorte e “proteção”. Deus ama seus filhos e não precisa nem de imagens, nem de água benta para amá-los, nem de correntes. Até muitos católicos fogem da verdade, que está nas Sagradas Escrituras, principalmente no Evangelho de Jesus, e se portam como pagãos! São cegos conduzindo outros cegos... “Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala” (Mt 15,14). “Jesus então disse: Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos. Alguns dos fariseus, que estavam com ele, ouviram-no e perguntaram-lhe: Também nós somos, acaso, cegos?... Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado, mas agora pretendeis ver, e o vosso pecado subsiste” (João 9,39-41). Quem é cego não busca a Verdade. É duro de aceitar, mas muitos batizados estão muito longe da verdade e se comportam como pagãos.

sábado, 23 de janeiro de 2010

3.º Domingo Comum

TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C
Neemias 8,2-4a.5-6.8-10–Salmo 18–Primeira Carta aos Coríntios 12,12-30–Lucas 1,1-4; 4,14-21

A Oração antes das Leituras já nos dá uma orientação para a interpretação das leituras de hoje: “dirigi a nossa vida segundo o vosso amor, para que possamos, em nome do vosso Filho, frutificar em boas obras”. O Novo Testamento traz o amor e a misericórdia de Deus para os pecadores contra a mentalidade legalista dos fariseus que não entendiam a misericórdia de Jesus para com os pecadores. “E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus!” (Mateus 21,31). “Porque acolheram o Filho de Deus, ao passo que os fariseus rejeitaram a pregação de João Batista e a de Jesus, apegados que estavam à Lei que condena. “Porquanto pela observância da lei nenhum homem será justificado diante dele, porque a lei se limita a dar o conhecimento do pecado” (Rm 3,20) e não da misericórdia e do amor de Deus. Vendo as coisas pelo lado do pecado, os fariseus só tinham palavras de condenação e se comportavam como uma “polícia” vigiando tudo o que faziam os discípulos de Jesus, SUS falta de jejum, criticando as obras de Jesus e seus discípulos nos sábados e condenando a todos, querendo apedrejar as adúlteras e negando toda misericórdia. A Nova Aliança não se baseia na Lei Mosaica, mas no que era desde o princípio e quer nos assemelhar a Deus pela misericórdia e boas obras. Mesmo assim Jesus diz: “Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição” (Mt 5,17). A verdadeira interpretação da Lei Mosaica está em resgatar o que era “desde o princípio” (cf. Mateus 19,4). E desde o princípio a pessoa humana foi criada à imagem e semelhança de Deus, para ser semelhante a Ele, que é misericordioso e criou a pessoa humana por misericórdia. Como Jesus não vem abolir a Lei, mas cumpri-la, a Leitura do Livro de Neemias traz uma solene leitura da Lei de Deus, antes da interpretação policial dos fariseus. A Leitura da Primeira Carta aos Coríntios traz um longo trecho para mostrar-nos que a comunidade cristã é um só corpo, onde os dons de cada um servem para o proveito de todos. Na comunidade cristã cada um precisa de todos os outros. E o Evangelho após uma introdução de São Lucas sobre a necessidade de saber tudo sobre Jesus Cristo, traz o mesmo Jesus, com a força do Espírito, lendo o Livro de Isaias em Nazaré e declarando que está cumprindo o que o Profeta Isaias escreveu. Ou seja, a missão de Jesus Cristo (Cristo quer dizer Ungido pelo Espírito Santo) é: anunciar a Boa-Nova aos pobres. Por que os pobres? Por que eles não tem em que se apoiar a não ser em Deus, ao passo que os ricos e poderosos se apóiam em suas riquezas e seu poder, deixando de se apoiar em Deus que é o Único a poder dar vida eterna à pessoa humana. Também libertar os cativos e dar aos cegos a recuperação da vista. Aqui Jesus não é um “oftalmologista divino” mas a visão é fazer perceber a Sabedoria divina. A libertação dos oprimidos: os oprimidos são aqueles condenados pelos fariseus, a quem Jesus dá o perdão dos pecados e Jesus Cristo anuncia um ano da graça do Senhor Deus. Diz São João: “Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (João 1,16-17). A misericórdia e todos os dons de Deus são graças que Ele derrama sobre seus filhos, mas continuam pertencendo a Ele e devemos prestar contas de seu uso, se os usamos por amor ou para nos envaidecer: “Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lucas 12,48). Todas essas ações são as “boas obras” a que se faz menção na Oração antes das Leituras. O próprio Jesus Cristo é uma graça enorme vinda das mãos do Pai, pelo “sim” de Maria Santíssima, que O recebeu. Por esta razão seu nascimento trouxe tanta alegria, aos magos, aos pastores, a Simeão e Ana, e aos anjos do Céu.

sábado, 9 de janeiro de 2010

2.º Domingo do Tempo Comum

Segundo Domingo do Tempo Comum – Ano C

Isaias 62,1-5 – Salmo 95 – Primeira Carta aos Coríntios 12,4-11 – João 2,1-11

Tal como nos Mistérios Luminosos do Rosário, ao Batismo de Jesus sucede o gesto simbólico do seu casamento com a humanidade. De fato a salvação não é um vestibular moral onde, pela misericórdia de Deus alguns pecadores “passam” e são salvos. É um casamento: Deus ama a todas as suas criaturas; agora resta às criaturas amarem o seu Criador para realizar esse casamento. Acontece que poucos amam o Criador e a maioria se consola nas criaturas mesmo, no dinheiro, nos afetos, no sucesso, no aplauso, na fama etc. Antes do pecado original a criatura humana vivia diretamente da vida que lhe proporcionava o Criador. Em tudo via o dom de Deus. Após o pecado original, a pessoa humana quis ser Deus e bastar-se a si mesmo. Como é criatura contingente não consegue bastar-se a si mesmo e deve apoiar-se em alguma coisa externa a si. Ao invés de apoiar-se em Deus preferiu apoiar-se nas criaturas e nos frutos de seu próprio trabalho. Só que nenhuma criatura dá vida eterna, só o Criador é terno e pode transmitir vida eterna. É terrível a sentença: “E disse em seguida ao homem: ‘Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar’” (Genesis 3,17-19). Mesmo que a pessoa humana trabalhe muito está votada à morte, porque é pó. Só o Criador pode tirá-la desse destino de morte, o que o Criador fez por meio de Jesus Cristo e do Espírito Santo.

A justiça de que fala a Leitura do Profeta Isaias é, em primeiro lugar, uma ação de graças em relação a Deus. É uma gratidão pelo fato de ter sido criado e gozar de tantos dons. O Criador não mais abandonará a sua criatura, mas tirará os Anjos do caminho do Paraíso e quer que a pessoa humana volte ao Paraíso (cf. Genesis 3,24). Não mais será a pessoa humana Abandonada, mas “Minha Predileta”. E termina a Leitura do Profeta Isaias com uma alusão ao casamento, como modelo da união de Deus com a pessoa humana.

O salmo é uma proclamação de que ser fiel a Deus é glorificá-lO e manifestar a salvação que Ele traz e reconhecer o Seu Poder. Aqui também o conceito de justiça que explicamos em relação à Leitura de Isaias se aplica.

A Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios mostra que os dons de Deus são diferentes para pessoas diferentes, mas que todos formam uma unidade, por receber do mesmo Espírito os dons. Cada dom recebido não é para a vaidade pessoal, mas para ser colocado a serviço dos demais. “Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão” (Mateus 20,28; Marcos 10,45). Cada um tem uma atividade diferente no corpo da Igreja, conforme os dons que recebeu de Deus.

O Evangelho de São João é simbólico. Há um casamento mas não aparece o nome nem do noivo nem da noiva. O noivo é o Senhor Jesus Cristo. A noiva é representada por Maria, a Mãe de Jesus, como figura da Igreja, e os discípulos de Jesus. A Mãe percebe a falta do vinho. E avisa a Jesus. Este diz: “A minha hora ainda não chegou” (João 2,4). É a hora do casamento verdadeiro, da redenção da humanidade, em que Jesus dará sua vida para que a pessoa humana tenha a vida eterna. Diante do que Sua Mãe diz aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (João 2,5), Jesus se prepara para fazer um sinal simbólico do significado de sua morte na Cruz. Ele é o noivo: deve, portanto, dar o vinho. E vinho em abundância: seiscentos litros! Esse vinho é sinal do sangue derramado de Jesus pela redenção do mundo. É por seu sacrifício que Jesus se unirá à humanidade e perdoará os pecados de todos, dando-lhes o Espírito Santo. É preciso que o Filho de Deus se anule para viver nos futuros membros do seu Corpo, numa atitude semelhante à que Jesus tem diante do Pai, ao qual é unido pelo mesmo Espírito Santo. A frase do mestre-sala: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!” (João 2,10), significa que o Novo Testamento, a Nova Aliança que Jesus Cristo estabelecerá pelo derramamento do Seu Sangue é muito superior à antiga aliança, marcada pelo sangue de animais e não pelo sangue preciosíssimo do Filho de Deus. Jesus, assim, manifesta a Sua Glória, que é a Glória de Seu Pai Celestial e os seus discípulos crêem n’Ele, realizando, assim, a mensagem do Salmo 95. O papel de Maria, neste casamento é importantíssimo, pois ninguém como Ela é a Esposa do Pai, a ponto de gerar Aquele que é ao mesmo tempo Filho de Deus, pela parte do Pai e Filho do Homem, por parte de Maria. Maria é a única pessoa humana sobre a Terra que jamais colocou qualquer resistência à graça de Deus, pois só Ela é a Cheia de Graça. Maria aqui é a imagem da Igreja inteira, a Esposa de Jesus Cristo, e exemplo de primeira seguidora de Seu Filho, a que nada possui pois tudo nela é sempre graça de Deus.

A justiça, de que fala a Leitura de Isaias, que surge como um luzeiro, se identifica com a salvação e é a realização da suprema vocação da pessoa humana: “Então Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Genesis 1,26-27). Essa criação à imagem e semelhança de Deus é para que a pessoa humana entre em comunhão com a Santíssima Trindade, pela comunhão com o Filho – a Segunda Pessoa – por obra do Espírito Santo que realiza a unidade das Pessoas. Por isso somos, desde o nosso batismo, membros do Corpo de Cristo e carregamos a Cruz de Cristo e a oferecemos ao Pai, junto com a d’Ele em cada Missa.

A leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios afirma que os dons de cada um não são para essa pessoa, mas para o conjunto do Corpo de Cristo, que são todos os membros da Igreja, e por extensão, toda a humanidade, pois Deus não faz acepção de pessoas. “Então Pedro tomou a palavra e disse: Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas” (Atos 10,34; 15,9; Romanos 2,11; 3,22; 10,12 etc.). Nenhum dom é para a vaidade da pessoa, mas todos são para viver o amor que se expressa em serviço ao próximo.

No Evangelho, Jesus afirma à Sua Mãe: “Minha hora ainda não chegou” (João 2,4), pois a hora da união final e da doação do Espírito para a união definitiva da pessoa humana com Jesus Cristo que é a Segunda Pessoa da Trindade, o Filho, se dá na sua morte redentora por nós, quando Jesus Cristo vence definitivamente o demônio: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12,31). Mas Jesus Cristo para atender Sua Mãe dá um sinal de que dará todo o seu preciosíssimo sangue por nós na Santa Cruz: transforma a água em vinho, água que é premonição da Eucaristia, Sangue precioso de Jesus Cristo por nós. O mestre-sala diz que todos servem primeiro o vinho bom e depois o vinho menos bom, mas que o noivo guardou o vinho melhor até o fim do casamento, porque o Antigo Testamento não realizava a justiça divina, não unia a pessoa humana à Santíssima Trindade, mas apenas manifestava a vontade de Deus através da Lei – os Dez Mandamentos – e significava dons apenas deste mundo como terra e vitórias militares.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Batismo do Senhor Jesus Cristo

Batismo do Senhor Jesus Cristo

Isaias 42,1-4.6-7 – Salmo 28 – Atos 10,34-38 – Lucas 3,15-16.21-22

O Batismo de Jesus no rio Jordão, por obra de São João Batista, é o ato que inaugura a vida pública de Jesus. Esta vida pública será uma permanente tentação. Por esta razão, o primeiro impulso do Espírito Santo após o Batismo do Senhor Jesus será enviá-lo para o deserto para ser tentado pelo diabo. A tentação maior virá na Paixão. E Jesus Cristo sairá vencedor, redimindo o gênero humano. O Espírito Santo é o centro do Batismo de Jesus Cristo. Podemos até dizer que é o Crisma de Jesus. Jesus é o Cristo porque foi ungido com o Espírito Santo. Crismado e Cristo são dois particípios passados do mesmo verbo. Significam a mesma coisa. Jesus é o Ungido do Pai. Desde sua concepção no ventre de Maria, Jesus está unido ao Pai pelo Espírito Santo, por ser o Filho de Deus. Mas no rio Jordão é a sua carne mortal que é ungida para dar-se num movimento divino e fazer-se alimento dos homens. Quando Jesus Cristo não Se ama a Si mesmo, mas morre por nós na Cruz está já dando o Espírito Santo para nós. O Espírito Santo é o Espírito da unidade das Pessoas, pela virtude do amor que faz uma Pessoa esquecer-se de si mesma e dar a vida pela outra. Assim o Pai se esquece de si mesmo pois a sua vida está no Filho (cf. Evangelho, Lucas 4,22) e o Filho se esquece de si mesmo pois a sua vida está no Pai. Só busca a glória do Pai. Quando Jesus se esquece de si por nosso amor está nos dando o Espírito Santo, pois está nos tratando do mesmo jeito que trata o Pai. O Espírito Santo também faz-nos viver a justiça bíblica que é “dar a Deus o que é de Deus”. Ou seja, a pessoa humana, criada por Deus, deve confiar totalmente em seu Pai Celestial e viver d’Ele. Foi o que Jesus Cristo viveu. Seu alimento era fazer a vontade do Pai (cf. João 4,32-34). Se essa é a justiça, claro está que Deus não faz acepção de pessoas e não trata os israelitas como superiores às outras pessoas humanas. Deus criou todas as pessoas e tem piedade de todos igualmente. Unidos a Jesus Cristo pelo Espírito Santo, somos libertados do poder do demônio. Ele não terá mais poder sobre os que se deixam ungir pelo Espírito Santo. Pelo Espírito Santo, Deus é nosso Pai e recebe todo o nosso louvor, e assim praticamos a justiça diante d’Ele.

A salvação é justamente essa união eterna com Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Não temos em nós vida eterna, mas unidos a Jesus participamos de sua Vida Eterna, em comunhão com o Pai e assim somos inseridos na Santíssima Trindade, somos divinizados. Todos os santos recebem o nome de “santo” que só pertence a Deus por essa união com Jesus Cristo, o Santo, e Seu Pai, no mistério da Santíssima Trindade.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Domingo da Epifania

Domingo da Epifania

Isaias 60,1-6 – Salmo 71 – Efésios 3,2-3a.5-6 – Mateus 2,1-12

Todas as festas após o Natal traduzem um aspecto desta festa. O Senhor veio para ser um sinal de contradição (Lucas 2,34). Por esta razão, logo após o Natal temos a festa dos Mártires Inocentes, lembrando que são os perseguidos com Jesus Cristo que possuirão o Reino dos Céus. Depois temos a Solenidade da Santa Mãe de Deus. Se Jesus Cristo é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, é Deus feito homem, é Deus, e então, Maria é a Mãe de Deus. Seu Filho é Deus. E temos hoje a Festa da Epifania, que em alguns lugares do Oriente é mais importante que o Dia de Natal. Significa, como se diz na Carta aos Efésios lida hoje, que Jesus Cristo não veio só para Israel, mas para todos os povos da terra, é o Salvador, não de Israel, mas da humanidade inteira, representada pelos Magos. Estes, que não eram israelitas estavam mais atentos à vinda do Messias que o próprio povo de Israel. Dentro do Evangelho há muitas passagens que sugerem que Jesus veio para toda a humanidade. Por exemplo, o centurião que pede a cura de seu servo, de quem Jesus diz que nem em Israel encontrou tanta fé; a mulher siro-fenícia; a parábola do Bom Samaritano; e o centurião diante da Cruz que é o único a dizer que Jesus era mesmo o Filho de Deus, quando os judeus preferiram Barrabás, um assassino. É claro, pelos Evangelhos e pelos Atos dos Apóstolos, que Jesus veio para a humanidade inteira e a sua salvação se manifesta até aos confins da terra (Salmo 71).

Os bispos da América, reunidos em 2007, em Aparecida do Norte, lançaram a Missão Continental, um estado permanente de missão ao qual a Igreja na América deve se acostumar. Essa missão é uma passagem do sacramentalismo para uma vida vivida a partir da Palavra de Deus.

Há um grande sincretismo religioso entre a Igreja e o candomblé por causa do sacramentalismo. Acreditando que o batismo daria a fé por si mesmo, os negros foram batizados sem a devida catequese, permanecendo com sua religião anterior. Mas o batismo não produz a fé, é o resultado de quem já tem fé, por causa da pregação: “Logo, a fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da palavra de Cristo” (Rm 10,17). Assim o negro sem catequese estava diante da imagem de São Sebastião, mas para ele significava Oxossi, um orixá. Daí as confusões: Jesus Ressuscitado é confundido com Oxalá, Nossa Senhora da Conceição com Iemanjá, São Jorge com Ogum, Santa Bárbara com Iansã, etc. Isto deu um grande mal na Igreja por causa do sacramentalismo. O sacramentalismo é pagão. As pessoas acham que os sacramentos são, não um compromisso com Jesus Cristo, mas uma bênção de sorte e de saúde. Quantos se casam na Igreja porque querem a “bênção” de Deus e nem sabem o que isso significa e a consideram uma sorte para o futuro. Até a Eucaristia, que é o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo. Jesus Cristo é a Palavra de Deus que se fez carne. Se a pessoa recebe a Eucaristia, mas não se alimenta interiormente da Palavra de Jesus Cristo, a recepção da Eucaristia fica sem o seu devido fundamento. Quanta gente quer batizar seus filhos na Igreja e quer ser crismada, mas não comparece às Missas de Domingo nas paróquias...

Por isso é mais que oportuna e necessária a Missão Continental. Jesus Cristo mesmo, só realizou a primeira Eucaristia, na sua Última Ceia, na véspera de sua morte na Cruz, depois de três anos instruindo seus discípulos na Palavra do Senhor. A pregação precede todos os sacramentos e se deve antes crer na pregação para só depois receber os sacramentos. A Missão Continental é necessária. Muitos passam para as seitas porque não conhecem a Palavra do Evangelho e passam a acreditar no Cristo da prosperidade e a dizer “Deus é fiel”, ou seja Deus me vai dar tudo aquilo que o pastor disse que Ele iria me dar porque eu paguei o dízimo. Assim os falsos pastores se enriquecem com os dízimos dos bobos, alimentados por falsas promessas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Santa Maria, Mãe de Deus

Santa Maria, Mãe de Deus

Números 6,22-27 – Salmo 66 – Gálatas 4,4-7 – Lucas 2,16-21

A festa de Santa Maria, Mãe de Deus, coincide com o dia da Circuncisão e da Imposição do santo Nome de Jesus – oitavo dia do nascimento. É também o dia do Santo Nome de Jesus. É também o dia mundial da Paz, com o lema, dado pelo Papa Bento XVI: “Se queres a Paz, cuida da Criação”.

A Leitura do Livro dos Números refere-se ao primeiro dia do ano, trazendo a bênção de Aarão, a primeira bênção ritual da Sagrada Escritura. O Salmo também se refere ao início do ano, pedindo a Deus a sua graça e a sua bênção e a alegria de viver, para as nações glorificarem a Deus.

O trecho da Carta aos Gálatas foi escolhido por causa da expressão “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gálatas 4,4). Mas lembra que Jesus veio para superar a Lei mosaica e estabelecer a filiação divina para todos os que O acolherem. “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (João 1,11-13). Esta filiação se dá pela união com Jesus, o Filho de Deus, pela unidade do Espírito Santo. Deus tem só um Filho, que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se encarnou como Jesus Cristo. Nós somos filhos de Deus pela união com o Filho Unigênito, em um só corpo, formado pelo Espírito Santo. E se pela união com Jesus somos filhos, somos também herdeiros da mesma herança do Filho do Homem Jesus: a vida eterna.

O Evangelho quase não se refere a Maria. Coloca antes a adoração dos pastores de Belém a Jesus Cristo. “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lucas 2,19.51). Maria é Mãe de Deus porque Jesus Cristo é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e portanto é Deus. A afirmação de Maria como Mãe de Deus quer ratificar que Jesus é mesmo Deus. Maria é também Nossa Senhora das Dores, mas não devemos pensar Maria na Paixão de seu Filho toda revoltada, chorosa e dolorosa. Não! Este versículo acima nos diz que Nossa Senhora das Dores é a mesma Nossa Senhora da Paz e da Consolação. Como Maria poderia ser Nossa Senhora da Paz e da Consolação se perde a Paz e a Consolação? A verdadeira imagem de Nossa Senhora das Dores é uma Senhora contemplativa, tentando descobrir as razões divinas para o sofrimento de Seu Filho. Não combina com Maria Imaculada, sem pecado, a revolta contra os planos de Deus. Maria é a Serva do Senhor no qual se cumpre sempre a Palavra de Deus com a sua anuência. “Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1,38). Não coloca a mínima resistência aos planos de Deus. Não podemos figurar Maria Santíssima na Paixão de seu Filho com base nas mães pecadoras que não aceitam a morte de seus filhos. Ela é diferente. Não coloca resistência a Deus e a nenhum dos planos de Deus.

Santa Maria nos é dada como Mãe por Jesus aos pés da Cruz, sendo acolhida pelo discípulo amado em nome de todos nós. Por que Maria é a Mãe dos Eleitos? Porque ela é “cheia de graça”, não tomando para si nenhum dos dons que lhe foram dados pelo Pai. Tudo nela é graça divina. Por isso ela vive uma verdadeira renúncia e é a primeira discípula de Seu Filho, que disse: “Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?...” (Mateus 16,24-26). Renunciar, em linguagem evangélica é atribuir a Deus todos os dons e não tomar posse de nenhum. É contraditória a canção que diz: “Tome posse da graça de Deus”. Se é graça de Deus, a Ele pertence e não devemos “tomar posse”. Deve-se usá-la, sim, para o bem próprio e dos irmãos, mas a graça continua sempre a pertencer a Deus. O nosso corpo é uma graça de vida. Mas não é nosso e parará de funcionar num dia que não podemos prever e que só Deus sabe. Nosso corpo pertence a Deus. Como podemos tomar posse do nosso corpo?

sábado, 26 de dezembro de 2009

Domingo da Sagrada Família

Domingo da Sagrada Família

Eclesiástico 3,3-7.14-17a – Salmo 127 – Colossenses 3,12-21 – Lucas 2,41-52

Deus criou a pessoa humana à Imagem das Pessoas Divinas (Genesis 1,27) e por esta razão criou o homem e a mulher, para serem “uma só carne”, imagem da unidade da Santíssima Trindade (Genesis 2,24). Os filhos são da mesma carne dos pais. Daí toda a humanidade constituir uma unidade (isto é importantíssimo para a fé cristã: por causa do pecado dos primeiros pais todos foram condenados; por causa da justiça de Jesus Cristo todos são salvos (Romanos 5,14-15)). A família faz parte, assim, da semelhança divina da pessoa humana. Nós fomos feitos para ser família. Os que querem dominar sobre as pessoas atacam a família para que as pessoas sejam menos do que devem ser, sejam tratadas como “gado”, que é mais fácil de se domar. Daí toda propaganda de homossexualismo, de divórcio, de casamentos homossexuais etc. Tudo isto tende a destruir a família e diminuir o valor da pessoa humana em prol dos que querem ser os dominadores da pessoa humana.

O Livro do Eclesiástico traz um quadro do amor familiar. Digno de nota é que já é antecipado o preceito evangélico de que o amor apaga uma multidão de pecados. Duas vezes se afirma isto: “Quem honra o seu pai (ou mãe), alcança o perdão dos pecados” (Eclesiástico 3,4) e “a caridade feita a teu pai (ou mãe) não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados” (Eclesiástico 3,15-16). Isto está de acordo com o Evangelho, quando diz: “Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão dos pecados (Pr 10,12)” (1Pd 4,8). E também nesta bela passagem de São Lucas: “Um fariseu convidou Jesus a ir comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume; e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume. Ao presenciar isto, o fariseu, que o tinha convidado, dizia consigo mesmo: Se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora. Então Jesus lhe disse: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Fala, Mestre, disse ele. Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinqüenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais? Simão respondeu: A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: Julgaste bem. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas esta, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama. E disse a ela: Perdoados te são os pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer, então: Quem é este homem que até perdoa pecados? Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: Tua fé te salvou; vai em paz” (Lucas 7,36-50).

A carta aos Colossenses também, depois de um discurso sobre o amor cristão em geral, incluindo o perdão (“perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam” (Mateus 6,12)), que também perdoa nossos pecados, aplica-o, enfim à família, começando pelas esposas, passando pelos maridos e chegando enfim aos filhos. E traz um princípio de vida cristã irretocável: “Tudo o que fizerdes, por palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo” (Colossenses 3,17). Afinal, se somos membros de Jesus Cristo, unidos a Ele pelo Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é Ele que faz em nós as obras que agradam a Deus. Diz São Paulo: “Na realidade, pela fé eu morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou pregado à cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2,19-20).

O Evangelho, porém traz um elemento que está acima de toda consideração de família, por mais nobre que seja a família humana. Antes de tudo somos filhos de Deus e os nossos pais terrenos foram apenas instrumentos de Deus para a nossa geração e educação. Por isso, Jesus Cristo, já aos doze anos, coloca a paternidade de Deus acima do afeto a seus pais. “Ao vê-lo seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: ‘Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos angustiados à tua procura’. Jesus respondeu: ‘Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?’. Eles, porém não compreenderam as palavras que lhes dissera. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no seu coração todas essas coisas” (Lucas 2,48-51). Jesus colocava o Pai Celeste à frente de seus pais terrestres, mas nem por isso deixava de ser-lhes obedientes. Alguns santos, como São Tomás de Aquino e São Francisco de Assis, e outros, encontraram em seus pais obstáculos para os planos de Deus em suas vidas. Daí preferiram entrar em conflito com seus pais do que deixar de ser fiéis a Deus em suas consciências.

Duas vezes Lucas refere-se à Virgem Maria como mulher de contemplação das maravilhas de Deus. “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lucas 2,19.51). Isto nos permite matizar as dores de Maria. Ela tinha plena confiança em Deus, não fosse ela Imaculada, sem pecado original. Daí sua angústia na perda do menino aos doze anos e na Cruz, durante a Paixão de seu Filho, ser uma contemplação do que Deus queria com todos aqueles acontecimentos. Se Maria é Nossa Senhora da Paz, se é Nossa Senhora da Consolação, é certo que não se desesperou nem na perda de seu Filho aos doze anos nem durante a Paixão. Procurava, claro, o que Deus, Seu Esposo verdadeiro, queria com todos esses acontecimentos. Nem sempre ela entendia tudo, mas confiava plenamente e não se desesperava. A verdadeira imagem de Nossa Senhora das Dores não é a de uma desesperada, o que não combina com a Imaculada Conceição, mas com uma contemplativa. Isto é também um exemplo para os pais que perdem os seus filhos antes de sua morte. Devem confiar que Deus ama os seus filhos com um amor infinito e cheio de misericórdia, e ama muito mais que somando o amor de todos os parentes e amigos juntos. Deus é Amor Infinito.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Natal de Jesus Cristo

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Missa da Noite

Isaias 9,1-6 – Salmo 95 – Tito 2,11-14 – Lucas 2,1-14

Como se diz na Oração antes das Leituras, o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo está ligado à salvação: “Deus [Pai] ... concedei, que tendo vislumbrado na terra este mistério, possamos gozar no Céu sua plenitude”. O Advento e o Natal estão sempre em função da salvação final, pois sem essa salvação de nada adianta todo o amor de Deus por nós.

A Leitura de Isaias figura o menino Jesus como uma luz nas trevas. Mais tarde o próprio Jesus Cristo dirá: “Falou-lhes outra vez Jesus: Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Essa luz é também causa de grande alegria e felicidade. Jesus Cristo aparece na Leitura como Libertador do jugo que oprime o povo. Figura Jesus também como um Rei de Paz eterna, que nunca acabará. Quem realizará toda essa alegria, felicidade, libertação e Paz será o amor zeloso de Deus.

O Salmo é uma celebração da alegria trazida pela Leitura de Isaias.

A Carta a Tito lembra a doutrina paulina do batismo como uma morte para este mundo e um nascimento para Deus (cf. Romanos 6,3-13). Por isso diz para não vivermos neste mundo segundo a impiedade e paixões humanas, mas com equilíbrio, justiça e piedade, frutos do Espírito Santo, “aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tito 2,13). Também aqui vemos o Natal em perspectiva de salvação final. Lembra também a misericórdia do Coração de Jesus que irá perdoar os pecadores – contra as condenações da Lei de Moisés interpretadas pelos fariseus – libertando-os do mal e liberando-os a praticar o bem.

O Evangelho de São Lucas traz a narração dos fatos relativos ao nascimento de Jesus Cristo. Traz porém, alguns conselhos evangélicos desde o início, que seriam repetidos pelo Senhor Jesus. Os anjos dizem aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria”. Jesus vem para nos libertar do medo e para trazer uma alegria eterna aos homens pecadores e penitentes. Traz também os sinais da pobreza do Salvador: “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Jesus é pobre porque não colocará nunca sua confiança, durante toda a sua vida em nenhum fruto do trabalho humano, nem dinheiro, nem fama, nem poder, mas tão somente em Deus, seu Pai. Seu alimento será fazer a vontade de seu Pai (João 4,31-34; Mateus 26,39 e paralelos). E aquele que se dará em alimento na Eucaristia já é colocado numa manjedoura, lugar do alimento dos animais. Toda a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo realizarão a glória do Pai eterno e a paz aos homens por Deus amados (Lucas 1,14), conforme cantam os anjos.

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Missa do Dia

Isaias 52,7-10 – Salmo 97 – Hebreus 1,1-6 – João 1,1-18

Também aqui, a oração antes das Leituras afirma a salvação eterna: “Ó Deus [Pai], que admiravelmente criastes a pessoa humana [à vossa imagem] e mais admiravelmente restabelecestes sua dignidade, dai-nos participar da divindade do Vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade”.

A Leitura do profeta Isaias louva os passos dos que anunciam a boa notícia e já coloca o nascimento de Jesus Cristo na linha do Reino de Deus, que só se consumará no último dia. “Reina o teu Deus!” (Isaias 52,7). Contrapõe as nações humanas a Deus, como dois poderes em luta, a pessoa humana querendo ser deus sem comunhão com o Deus verdadeiro – segundo a tentação que satanás colocou desde o início (Genesis 3,5) – e Deus sendo mais forte, salvará os que aceitarem entrar no Seu Reino. E anuncia a salvação universal, e não só para Israel: “todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus” (Isaias 52,10). O Salmo celebra essa salvação universal.

A Carta aos Hebreus, em seu início, contém um cântico de salvação em que Jesus Cristo é descrito como o Filho pelo qual Deus fala aos homens, é o esplendor da glória de Deus, artífice do universo e herdeiro de todas as coisas, em particular as pessoas salvas por Ele. É também o sustentáculo do Universo, pelo poder de Sua Palavra, e é superior aos anjos, embora, ao se fazer homem tenha se submetido por um tempo a ser-lhes inferior. Por isso, os anjos devem adorá-Lo.

O Evangelho de São João traz o seu sublime Prólogo. Pontos a ressaltar nesse prólogo são Jesus Cristo como a Sabedoria com a qual Deus criou tudo o que existe e sem Ela nada fez. Também é de ressaltar o desencontro: Jesus é a Vida (João 11,25; 14,6). Os homens, porém, para quem “a vida era a luz dos homens” (João 1,4), não encontram em Jesus Cristo a Vida, mas “o mundo não quis conhecê-La” (João 1,10), o matam e rejeitam. A pessoa humana quer ter o seu reino nesta terra marcada pelo pecado e pela morte, sem perceber que tudo nesta terra é muito passageiro. Jesus Cristo tem “um Reino que não é deste mundo” (João 18,36), um Reino sem morte e sem pecado, sem dominação de uma pessoa sobre outra, sem enganos e sem mentiras. “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (João 1,14). Esta é a confissão de Jesus Cristo como a Palavra criadora do Pai, a Sabedoria sem a qual nada foi feito (Provérbios 8,22-33). E aparece a magnífica figura de São João Batista, que não é a Luz, mas vem para dar testemunho da Luz. Na figura de São João Batista, estão retratados todos os Apóstolos do Senhor Jesus Cristo, que anunciam sua Encarnação Divina, que passou fazendo o bem, sua morte e sua ressurreição e ascensão à direita do Pai (Atos 10,36-42). Este sublime prólogo pode ser causa de muitas outras reflexões ainda, sendo inesgotável.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

4.º Domingo do Advento

Quarto Domingo do Advento

Miquéias 5,1-4a – Salmo 79 – Hebreus 10,5-10 – Lucas 1,39-45

A liturgia do tempo do Advento vai passando de uma preparação para a segunda vinda de Jesus Cristo a uma aparente espera da festa do Natal de Jesus Cristo. A mensagem dos Apóstolos, porém, é a preparação para a segunda vinda de Jesus Cristo “que virá para julgar os vivos e os mortos”. É esta a realização do Reino de Deus, “que não é deste mundo” (João 18,36). É preciso perceber que todo o acontecimento da primeira vinda de Jesus Cristo está em função do último dia e da realização do Reino de Deus. A própria Encarnação se deu para a realização do Reino de Deus e a pessoa humana, expulsa do Paraíso voltar a ele pela graça de Deus, que redime os pecados. Por isso, mesmo o Natal está em função da Páscoa e esta em função da realização do Reino de Deus definitivo. Este aparente deslocamento da segunda vinda de Jesus Cristo para uma preparação para o Natal deve ser visto como uma proclamação da realidade histórica da primeira vinda de Jesus Cristo, e a fidelidade de Deus, que cumpriu as profecias do Antigo Testamento, que falavam do Messias que devia vir, e do mesmo modo, Deus cumprirá as profecias do Novo Testamento, com a segunda vinda de Jesus Cristo, como Rei.

A Profecia de Miquéias localiza o lugar em que o Messias deverá nascer: Belém-de-Éfrata, perto de Jerusalém, cidade do antigo Rei Davi. Jesus é colocado como Aquele que dominará, isto é, é o Rei. Afirma também sua divindade, quando diz: “sua origem vem de tempos remotos, desde os dias da eternidade” (Miquéias 5,1c). Nenhuma ação de Deus é tão decisiva como esta, por isto se diz: “Deus deixará seu povo ao abandono, até ao tempo em que uma mãe der à luz” (Miquéias 5,2). A perspectiva é a do Reino definitivo de Deus, porque continua dizendo: “Ele não recuará, apascentará com a força do Senhor (a relação de unidade entre o Filho e o Pai) e com a majestade do Nome do Senhor (Jesus é Rei); os homens viverão em paz (... no Reino definitivo), pois Ele estenderá o poder até os confins da Terra, e Ele mesmo será a Paz (Jesus Cristo é o Esposo de todos os eleitos; todos viverão unidos pela comunhão com Ele) (Miquéias 5,3-4). Vemos claramente que o nascimento de Jesus já se dá em vista do Reino definitivo.

O Salmo é uma oração pedindo conversão para alcançar a salvação, como está expresso no próprio refrão.

A Leitura da Carta aos Hebreus traz uma mensagem pascal. É o Filho que faz a vontade do Pai e oferece seu corpo humano em sacrifício, dando-o todo ao Pai (cf. Romanos 12,1) que O ressuscitará. A verdadeira oferenda do cristão a Deus não é nem pão nem vinho, mas o próprio corpo mortal, como Jesus Cristo ofereceu o Seu, para que o Pai os ressuscite. Os cristãos são membros do Corpo de Cristo: assim como Ele ofereceu seu Corpo, os cristãos devem oferecer os seus, em vista da ressurreição e do Reino definitivo.

O Evangelho de São Lucas traz a cena da Visitação, que vem logo após a Anunciação do Anjo a Maria. Isabel já fica cheia do Espírito Santo, o que é um fruto da Páscoa de Jesus Cristo e sinal do Reino definitivo de Deus. E a fé de Maria é celebrada. Ninguém viu o Reino de Deus. Se o esperamos é porque cremos no que Deus revelou por meio do seu Filho. É a fé. A Fé é a certeza de que o que Deus revelou é plenamente verdadeiro e digno de ser esperado com plena confiança de que tudo se realizará. A fé é um ato de razão (entender o que Deus revelou) e um ato de vontade (querer crer que o que Deus revelou é Verdade).

Temos então comprovado que o evento do Natal se dá em função da Páscoa e do Reino de Deus definitivo, a ser inaugurado no último dia, na segunda vinda de Jesus Cristo, para julgar os vivos e os mortos e para levar os eleitos para o seu Reino. O Advento é preparação, não para o Natal, que já se deu há 2000 anos, mas para a segunda vinda de Jesus Cristo, como Rei.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

3.º Domingo do Advento

Terceiro Domingo do Advento

Sofonias 3,14-18a – Isaias 12,2-6 – Filipenses 4,4-7 – Lucas 3,10-18

Todo o Advento é um tempo de esperança, de alegria, pela perspectiva da vida eterna, sem males e preocupações, sem medos. Mas este domingo é marcado particularmente pelos sentimentos de alegria. Até o roxo cede lugar ao cor-de-rosa. Esta alegria se baseia, como diz a Leitura de Sofonias em que o Senhor Deus revogou a sentença de condenação e afastou os inimigos dos filhos de Deus e estes agora estão sob a misericórdia do Senhor. Como sempre a mensagem do Advento é “não te deixes levar pelo desânimo” (Sf 3,16). Isto significa, como diz a Carta aos Romanos, “Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus desígnios” (Romanos 8,28). Ora se tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, sejam as coisas agradáveis, sejam as cruzes, devemos viver com muita intensidade a vida sem temer as cruzes, pois elas são permitidas por Deus para o nosso bem. Vive a vida com intensidade quem não julga os dias se são bons ou maus, mas aceitam todas as realidades com o mesmo ânimo. E não se abatem diante das dificuldades, mas buscam tranquilamente as soluções. Isso é uma vida com Deus, em que se agradece todos os dias a Deus com muita gratidão. Diz o início de cada prefácio das Missas: é nosso dever e salvação dar-vos graças em todo tempo e lugar. Devemos morrer agradecendo a Deus o dom da vida. Quem não recebe a vida não pode morrer. E Deus tem uma vida divina e eterna para dar aos que vivem assim intensamente e em gratidão a Deus seus dias. Na Leitura de Sofonias também a Presença de Deus no meio do seu povo é um motivo de ânimo. Ainda mais no Novo Testamento, em que o templo de Deus não é de tijolos, mas são os nossos corpos, onde Deus se compraz em morar pela virtude do Espírito Santo que nos une ao Pai e ao Filho.

A Carta aos Filipenses foi escrita por São Paulo no cárcere, mas nada tem de lamentação. São Paulo se alegrava nos sofrimentos suportados por Jesus Cristo. “Ainda que tenha de derramar o meu sangue sobre o sacrifício em homenagem à vossa fé, eu me alegro e vos felicito” (Filipenses 2,17). “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Colossenses 1,24). Pelo contrário é uma Carta cheia de mensagens de alegria, esperança e despreocupação. “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas com ações de graças. E a paz de Deus (a paz de Jesus Cristo que a gente dá na Missa), que ultrapassa todo o entendimento, guardará vossos corações e pensamentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4,6-7). A alegria é estar “no colo” de Deus sob sua total proteção, o que se dá mesmo no dia da nossa morte, pois Ele nos dará vida divina e eterna.

O Evangelho de São Lucas nos traz a pregação de São João Batista que nos traz aspectos dessa despreocupação e tranqüilidade em Deus. As pessoas não precisam acumular dinheiro – o que é uma das maiores preocupações das pessoas – pois o dinheiro em excesso não dá paz, pode ser até isca para ladrões e assassinos, como ocorre freqüentemente. São João Batista também dá um motivo de alegria quando sabe bem que é humilde diante do Senhor, que não é o Messias e nem é digno de desamarrar suas sandálias. Uma das causas de preocupações das pessoas é a própria afirmação pessoal em que cada um quer ser mais do que é. São João Batista sabe bem do seu tamanho e por esta razão é feliz. Não quer ser mais do que é. Esta humildade é causa de tranqüilidade para a alma e para a pessoa. O orgulho pesa, obriga a pessoa a querer ser mais do que é e é causa constante de frustração e infelicidade. A humildade é causa de alegria. A pessoa se aceita como é. “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mateus 11,28-30). A Cruz de Jesus Cristo para os humildes não é um peso, mas é fonte de Paz.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Imaculada Conceição

Imaculada Conceição de Maria Santíssima

Genesis 3,9-15.20 – Salmo 97 – Efésios 1,3-6.11-12 – Lucas 1,26-38

Os dons de Deus superam o tempo. A Igreja Católica ensina que Maria foi concebida sem pecado original – e é verdade – em vista dos méritos futuros da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Jesus disse aos seus apóstolos: “Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei” (Jo 16,7). Como então o Espírito Santo encheu Isabel e João Batista quando Maria visitou Isabel logo após a Anunciação? “Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (Lucas 1,41-44). E que como dizemos no Credo Niceno-constantinopolitano quando falamos do Espírito Santo “foi Ele que falou pelos profetas”? Os profetas falavam por meio do Espírito Santo? Então Jesus Cristo devia dar sua vida pela humanidade porque o dom de sua Paixão, que é o Espírito Santo, já havia sido dado. Por isso era preciso que se cumprissem as Escrituras. Como Jesus ensinou aos discípulos de Emaús: “Jesus lhes disse: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória? E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (Lucas 24,25-27).

A Leitura do Livro do Genesis denuncia como, após o pecado, a pessoa humana foge de Deus e não O ama, a não ser pela ação do Espírito Santo. A pessoa humana, homem e mulher se escondem de Deus, como se isso fosse possível (v. 10). Mas a parte mais importante está no v. 15: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te esmagará a cabeça e tu tentarás morder-lhe o calcanhar”. A inimizade é entre a serpente, satanás e a mulher, concebida sem pecado original. Esta inimizade é que explica como os maus perseguem os bons e porque Jesus morreu na Cruz e houve tantos mártires na Igreja. Os filhos das trevas não suportam os filhos da luz.

No Evangelho de hoje temos que o Anjo Gabriel nem chama Maria pelo nome. Refere-se a ela como “cheia de graça” (kekaritomene, no grego). É um dos principais títulos marianos. A graça é um dom divino, que continua a pertencer a Deus, mas é doado para o bem das criaturas de Deus. Maria é cheia de graça porque não toma posse da graça, como nós, que dizemos que o corpo é nosso, a vida é nossa. Tudo nela pertence a Deus. Daí ela não apresentar a menor resistência a Deus e haver um pleno casamento entre Maria e o Pai de Jesus Cristo. Há uma comunhão perfeita. Os protestantes dizem que Deus praticou uma “barriga de aluguel” em Maria, e que após conceber Jesus ela teve outros filhos com José. Isso é impossível. Os ditos “irmãos de Jesus” aparecem em outras passagens com outras mães, que não são Maria Santíssima. E, ao pé da Cruz é João que leva Maria para casa (João 19,27) e não seus filhos. Se Maria tivesse outros filhos não iria para a casa de um discípulo de Jesus.

São Luís Maria Grignion de Montfort errou em seus escritos ao dizer que o Espírito santo é o esposo de Maria, pois o Anjo Gabriel se refere ao Espírito santo e não ao Pai, quando fala a Maria. Se o Espírito Santo fosse o esposo de Maria seria o Pai de Jesus Cristo, mas a Primeira Pessoa da Trindade é que é o Pai e não a terceira. O Espírito santo deve ser entendido como o Espírito que realiza a comunhão de vida entre as pessoas. Maria é toda de Deus e Deus se dá todo a Maria. Por isso diz-se que “a sombra do Espírito Santo veio sobre Maria” (v. 35). Para uni-la ao Pai e o Filho ser ao mesmo tempo Filho de Deus – pelo Pai – e filho do homem – por Maria.

Jesus ensinou: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,26-27). E também: “Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lucas 14,33). Por isso, a Consagração total dos dons da pessoa a Maria, que nada retém para si, por ser “cheia de graça”; na verdade, consagrar-se a Maria é consagrar-se a Deus pela união íntima entre Maria e Deus. Nesta doutrina, São Luís Maria Grignion de Montfort acertou. A Consagração a Maria é uma forma de viver essa renúncia que Jesus Cristo pede no Evangelho. O que se dá a Deus é de Deus, não é mais nosso. Por esta razão a Consagração total a Maria é caminho de ser discípulo de Jesus Cristo. Podemos, por isso, também ser “cheios de graça” como a nossa Mãe Santíssima.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

2.º Domingo do Advento

segundo Domingo do Advento – Ano C – 2010

Baruc 5,1-9 – Salmo 125 – Carta aos Filipenses 1,4-6.8-11 – Lucas 3,1-6

A própria Encarnação, na primeira vinda do Filho de Deus, está endereçada para o Reino definitivo, que só virá plenamente na segunda vinda do Filho de Deus. Daí a pregação inicial de Jesus: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho” (Mc 1,15). O Reino de Deus próximo é o julgamento de todas as pessoas humanas para se revelar quem acolheu o Reino de Deus e viveu d’Ele e quem viveu só a partir das criaturas que não podem dar vida eterna. A pregação dos Apóstolos também é a proximidade do Reino de Deus: “Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo (...) Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo” (Lc 10,9.11). A segunda vinda de Jesus Cristo e o advento do Reino definitivo de Deus, que vence o poder do pecado, estão inseridos fortemente na pregação dos discípulos de Jesus Cristo. Todos devem se preparar para a vinda de Jesus, que como rezamos no Credo “virá para julgar os vivos e os mortos”. Este é um elemento central da pregação cristã, que não pode ser esquecido nem omitido.

Na leitura da Profecia de Baruc, tanto Jerusalém como Israel referem-se à Igreja de Jesus Cristo, formada por gente de todos os povos do mundo e não de um só povo. Despir a veste de luto é passar para uma realidade onde a morte não existe mais. Os eleitos de Deus “brilharão como o Sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43). A Justiça em relação a Deus provocará a Paz e a Piedade, que é comunicação com Deus, será participação na sua glória. A Cruz de Jesus Cristo está presente neste texto quando se diz: “Saíram de Ti, caminhando a pé, levados pelos inimigos; Deus os devolve a Ti, conduzidos com honras, como príncipes reais” (Baruc 5,8). Toda essa leitura é uma promessa de felicidade eterna para os que forem fiéis a Deus, durante seu sofrimento nesta terra. O salmo é uma resposta de alegria a essa esperança.

A carta aos Filipenses foi escrita na prisão. Entretanto São Paulo é sempre positivo nela e exorta à alegria. A perspectiva desse trecho é a preparação para o dia de Jesus Cristo, o último dia (Filipenses 1,7.10). Enquanto este dia não chega, São Paulo se alegra pela divulgação do Evangelho por obra dos filipenses (Filipenses 1,5). O objetivo de São Paulo é que os filipenses cheguem ao dia de Jesus Cristo, crescidos no amor e puros e sem defeitos, cheios do fruto de justiça (Filipenses 1,7.10).

O Evangelho traz uma mensagem de penitência baseada na figura de São João Batista. São João Batista preparou o povo de Israel para a vinda de Jesus e é uma figura que tem tudo a ver com a mensagem do Advento. Tendo preparado o povo para o primeiro Advento, é um personagem a ser lembrado na preparação para o segundo Advento. João não trazia toda a Sabedoria de Jesus, sua pregação era muito mais simples, mas tendo o Evangelho, sabemos o que nos espera. O objetivo do Evangelho é que cada vez mais nos apoiemos em Deus e cada vez menos nas criaturas, no dinheiro, na fama, no sucesso ou no poder. Por essa razão o Evangelho fala sempre em renúncia. Renunciar é aprender a abrir mão das coisas e até de nós mesmos, para sermos fiéis a Deus. Podemos abrir mão de nós mesmos, pois o nosso defensor é Deus que nos deu uma vida mortal e nos dará uma vida eterna. Nem mesmo a morte é maior do que o amor de Deus por nós, se buscarmos o caminho do Evangelho e não rejeitarmos o amor de Deus. Ele nos ama e só nos separaremos d’Ele se nós mesmos, pelo orgulho, nos acharmos auto-suficientes e não O buscarmos. Buscar a Deus é renunciar a todas as criaturas, até ao pai e à mãe, e aos afetos mais íntimos para dependermos cada vez mais de Deus só. E renunciar também aos bens materiais, fazendo a caridade para com o nosso próximo. “Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!” (Mt 19,21). Depender só de Deus corresponde à Verdade sobre a pessoa humana, criada à imagem de Deus e cuidada por Deus, que é a vida da sua vida.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

1.º Domingo do Advento

Primeiro Domingo do Advento – Ano C – 2010

Jeremias 33,14-16 – Salmo 24 – Primeira aos Tessalonicenses 3,12-4,2 – Lucas 21,25-28.34-36

Começa hoje um novo Ano Litúrgico, Ano C. O Ano Litúrgico começa com o Tempo do Advento. O Tempo do Advento é conhecido como uma preparação para o Natal. Na verdade, porém, não é tanto uma preparação para o Natal, mas para a Segunda Vinda do Senhor, que pode se dar a qualquer momento. O Natal é uma recordação de como Deus foi fiel às promessas feitas aos profetas e enviou o Salvador. Assim Deus será também fiel e o Senhor virá para julgar os vivos e os mortos, como dizemos no Credo.

A Leitura do Profeta Jeremias nos mostra que Deus dará bens eternos a Israel e Judá. Aqui Israel e Judá simbolizam a Igreja de Jesus Cristo. Tais bens eternos foram conseguidos por Jesus Cristo, “a semente da justiça que fará valer a lei e a justiça na terra” (Jeremias 33,15). Jesus Cristo é a nossa Justiça (cf. Jeremias 33,16) pois restaurou as coisas como eram antes do pecado original, quando a pessoa humana vivia exclusivamente da graça de Deus e não das criaturas ou dos frutos do seu trabalho. Daí é que vem que o Reino de Deus pertence aos pobres (cf. Mt 5,3), pois estes se fazem dependentes de Deus, ao passo que os ricos se apóiam nas suas riquezas (criaturas) que não podem, como Deus, dar vida eterna a ninguém.

O salmo 24 responde à Leitura de Jeremias, pedindo a Deus a sabedoria para discernir os caminhos do Senhor e O louva por seus caminhos serem de amor e de verdade e por ter misericórdia dos pecadores arrependidos dos seus pecados.

A Primeira Carta aos Tessalonicenses exorta ao amor e à santidade de vida para o dia da vinda do Senhor que vem para julgar. E lembrando o ensinamento dos Apóstolos de como as pessoas devem viver para agradar a Deus. E exorta a progressos ainda maiores!

O Evangelho de São Lucas nos lembra que as últimas realidades a acontecerem antes da vinda do Senhor serão apavorantes para os que não tiverem a paz de Jesus Cristo. Para os bons cristãos será uma hora de vitória pois a sua libertação (da tentação, do pecado) estará próxima. E dá algumas recomendações para se preparar para a segunda vinda do Senhor: não se deixar levar pelos prazeres da carne (gula, embriaguez) e nem pelas preocupações da vida (dinheiro, segurança pessoal...). Recomenda também a oração constante para viver esses últimos momentos em comunhão com Deus e fazendo somente a Sua Vontade, a fim de não se aterrorizar com a vinda de Jesus Cristo.

Como conclusão, o que devemos viver é o Evangelho e viver o Evangelho é viver cada vez mais dependente só de Deus e cada vez menos das criaturas, não temendo a nenhum acontecimento, mas temendo somente se separar de Deus pela própria fraqueza. A oração não é só vocal, mas mental, para compreender todo o mistério de Jesus Cristo, como Maria Santíssima fazia (Lucas 2,19.51). Uma excelente conclusão para este primeiro domingo do Advento é o próprio cântico de Maria em Lucas:

E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor,

meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,

porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações,

porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo.

Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem.

Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos.

Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes.

Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos.

Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia,

conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre” (Lucas 1,46-55).

A humildade de Maria que comoveu a Deus é conseqüência de sua Imaculada Conceição. Ela é a cheia de graça, porque não se apossa de nada que lhe deu o Senhor Deus. Tudo nela continua a ser plenamente de Deus, em total disponibilidade para Deus. Por isso ela pode dizer: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1,38).

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

34.º Domingo Comum

34.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Nosso senhor jesus cristo, rei do universo

Daniel 7,13-14 – Salmo 92 – Apocalipse 1,5-8 – João 18,33b-37

Com este domingo iniciamos a última semana do Ano Litúrgico. Contemplamos Jesus Cristo, sentado à direita do Pai e que virá para julgar os vivos e os mortos. Quando Deus criou o homem e a mulher os fez à Sua Imagem para serem seus representantes no mundo visível, reis do mundo visível. Pelo pecado eles perderam essa condição real e a entregaram a satanás. Por isso diz a Primeira Carta de São João 5,19: “Sabemos que somos de Deus, e que o mundo todo jaz sob o Maligno” (1Jo 5,19). Jão se faz carente de Jesus Cristo, por sua paixão e morte recupera o reinado do homem sobre a natureza. Por que Ele não se faz carente de nenhum bem da natureza, nem das pessoas. Jesus Cristo só depende do Pai para viver. Assim tem poder sobre tudo pois não precisa de nada para viver: só do Pai. Quem precisa de algo não sabe se possui esse algo ou se esse algo o possui. As paixões humanas nos escravizam.

A leitura da Profecia de Daniel traduz essa realeza de Jesus Cristo recuperada em favor do homem. E o Salmo também celebra a mesma coisa. A leitura do Apocalipse já acrescenta algo a mais: Jesus é a testemunha fiel do Pai, o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o soberano dos reis da terra (Apocalipse 10,5). Fez de nós um reino e sacerdotes para Deus, seu Pai (Apocalipse 10,6). Somos sacerdotes com Jesus Cristo na medida em que participamos de sua Cruz e de sua Paixão. Ele é o Alfa e o Ômega (Apocalipse 10,8), o começo e o fim de todas as coisas, todas as coisas são por ele e para ele.

No Evangelho de São João, Jesus relaciona o seu reino, que não é deste mundo com a Verdade. Por que? Jesus diz que veio dar testemunho da Verdade. “Quem é da Verdade escuta a Sua Voz” (João 18,37). Que Verdade é essa? Antes do pecado de Adão e Eva eles viviam a Verdade. Eles não viviam dos frutos das árvores do Paraíso, mas de Deus que era o doador de todos os bens. São João Batista recorda a mesma Verdade: “João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu” (Jo 3,27). Então a criatura, toda criatura vive, na Verdade, do Criador, a Fonte de todos os bens. Só Ele pode dar vida eterna, como deu esta vida mortal às suas criaturas humanas. O pecado consiste em crer que a nossa segurança está nas criaturas, no poder, no dinheiro, na fama e nos aplausos, no sucesso que fazemos diante dos outros. Tudo isso é vaidade. “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade” (Eclesiastes 1,2). Nada disso serve para dar vida eterna a nenhuma pessoa humana. Jesus Cristo vive a Verdade, pois, como já dissemos vive somente do Pai, sem se fazer carente de nenhuma criatura humana. A Vida brota do Pai e de mais ninguém, de nenhuma criatura. Mesmo que morrêssemos de fome, por fidelidade a Deus, Ele nos ressuscitará. Esta é a grande Verdade bíblica: o pecado está em confiar nas criaturas como sustentação da nossa existência. Devemos nos apoiar só em Deus. “Só Deus basta!” já dizia Santa Teresa de Jesus. E São Luís Maria Grignion de Montfort também tinha um mote que dizia: “Deus só”. Reinamos com Jesus Cristo na medida em que somos livres das criaturas como nosso sustento e nos apoiamos só em Deus. Por esta razão São Francisco de Assis dava tanta importância à pobreza de bens. Queria apoiar-se em “Deus só!”.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

33.º Domingo Comum

33.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Daniel 12,1-3 – Salmo 15 – Hebreus 10,11-14.18 – Marcos 13,24-32

O mês de novembro tem uma liturgia toda voltada para os últimos acontecimentos, a segunda vinda de Jesus Cristo e os sinais que a precederão. O Evangelho fala de uma grande tribulação. O Livro de Daniel fala que se levantará Miguel. São Miguel Arcanjo é o anjo que se opõe a satanás, que age sabendo que lhe resta pouco tempo. “Por isso alegrai-vos, ó céus, e todos que aí habitais. Mas, ó terra e mar, cuidado! Porque o Demônio desceu para vós, cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Ap 12,12). Este tempo de tribulação, diz o Livro de Daniel “será um tempo de angústia, como nunca houve até então” (Daniel 12,1). “Em verdade vos digo, esta geração não passará até que tudo isto aconteça” (Marcos 13,30). Isto porque os “muitos dos que dormem no pó da terra, despertarão, uns para a vida eterna” (Daniel 12,2). Este mistério começa com a Ressurreição de Jesus Cristo mesmo, que se passa durante a geração dos seus contemporâneos. O texto também fala que se uns despertarão para a vida eterna, outros despertarão “para o opróbrio eterno” (Daniel 12,2). Não nos é lícito duvidar da existência do inferno. O inferno não é um vestibular, ao qual Deus dará um auxílio pra que todos passem. É mais um casamento. Deus ama a todos, mas não é amado por todos. Há até quem negue a sua existência e fuja d’Ele intencionalmente, preferindo fazer o mal. O Livro de Daniel continua: “os que tiverem sido sábios brilharão como o firmamento” (Daniel 12,3). Não é o sacramento que nos salva, mas a Sabedoria do nosso viver, a conformidade da nossa vontade com a vontade de Deus. Todos devemos buscar a Sabedoria que é o maior dom do Espírito Santo. O princípio da Sabedoria é o temor de Deus, que é mais um temor da própria fraqueza da pessoa humana que a leva a pecar contra Aquele que é a sua salvação.

O Evangelho diz que “as estrelas começarão a cair do céu” (Marcos 13,25). Isto só pode ser uma imagem, pois as estrelas são muito maiores que a terra e não haveria espaço para tantas estrelas. Diz também que “o sol vai escurecer e a lua não brilhará mais” (Marcos 13,24). Isto pode referir-se à bancarrota do projeto da inteligência do homem, que será incapaz de trazer vida eterna a si mesmo, produzindo uma grande poluição e morte. Quando o projeto humano falir, Jesus mostrar-se-á como a salvação do gênero humano. “Quando os homens disserem: Paz e segurança!, então repentinamente lhes sobrevirá a destruição, como as dores à mulher grávida. E não escaparão” (1Ts 5,3). Jesus enviará seus anjos a toda a terra para reunir os eleitos de Deus (Marcos 13,27). Será o tempo de separar os peixes bons dos maus (“O Reino dos céus é semelhante ainda a uma rede que, jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta. Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13,47-50)) e de separar o joio do trigo (“Jesus propôs-lhes outra parábola: O Reino dos céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo. Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu. O trigo cresceu e deu fruto, mas apareceu também o joio. Os servidores do pai de família vieram e disseram-lhe: - Senhor, não semeaste bom trigo em teu campo? Donde vem, pois, o joio? Disse-lhes ele: - Foi um inimigo que fez isto! Replicaram-lhe: - Queres que vamos e o arranquemos? - Não, disse ele; arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Recolhei depois o trigo no meu celeiro” (Mateus 13,24-30)). O Evangelho diz também: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Marcos 13,31). As verdades científicas da inteligência humana, da física, da química e da biologia passarão, mas a verdade do Evangelho não passará jamais. E esta verdade é bastante simples: Deus é o Criador do homem e ninguém pode dar vida eterna a si mesmo. A inteligência humana com todas as suas maravilhas e o seu orgulho não pode dar vida eterna ao homem pois a vida é fruto do amor. A ciência humana acabará por produzir mais morte do que vida, que é o que já presenciamos, por falta de amor. Este é também o nexo da morte de Jesus Cristo na Cruz. Jesus mostrou muito poder fazendo muitos milagres e mostrou também muita sabedoria em seus ensinamentos. Mas nos salvou quando estava imóvel na Cruz. Sofreu a tentação: “A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!” (Lc 23,35). Jesus vive a Verdade, mais Ele mesmo é a Verdade. Na sua imobilidade, nada faz para se salvar. SE descesse da Cruz continuaria mortal. Ao morrer esperando no Pai Celestial, Este O Ressuscita, dando uma Vida Imortal. Assim, o principal é a fé em Deus, a esperança e a caridade que nos unem a Deus e nos fazem esperar em Deus que, tendo-nos dado a vida mortal é o Único que pode nos dar a Vida Imortal.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

32.º Domingo Comum

32.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

1Reis 17,10-16 – Salmo 145 – Hebreus 9,24-28 – Marcos 12,38-44

A Palavra de Deus de hoje traz a mesma perspectiva da Segunda Vinda de Jesus que esperamos. O objetivo de Jesus com seu ensinamento é que nos tornemos absolutamente dependentes de Deus, como Adão e Eva no Paraíso, antes do pecado original. A partir do pecado original Adão e Eva, e com eles todo o gênero humano trocaram a confiança em Deus pela confiança nas criaturas e pelo orgulho. Por isso Jesus ensina que os pobres e os últimos, os mais carentes serão os primeiros. “Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros” (Mt 19,30; 20,16; Mc 10,31; Lc 13,30). “Então ele ergueu os olhos para os seus discípulos e disse: Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!” (Lc 6,20). Quanto mais meios fora de Deus a pessoa possui maior a probabilidade de confiar nesses meios e não confiar em Deus. Os meios criados a pessoa vê, Deus ela não vê. Por isso Jesus diz que o seu discípulo deve se desfazer dos bens para segui-lo. “Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!” (Mt 19,21).

Na Leitura do Primeiro Livro dos Reis, a mulher é convidada por Elias a crer na palavra de Deus e colocar-se sob a proteção de Deus. Ela obedece e Deus mostra sua fidelidade. A mulher alimentou primeiro Elias e depois ela mesma e seu filho – que esperavam a morte. Pela caridade da mulher Deus deu-lhe meios de vida.

No Evangelho, Jesus censura a vaidade dos doutores da Lei, que gostavam de andar com roupas vistosas e serem o centro das atenções, cheios de sua posição social, bem longe dos pobres, que dependem de Deus. Os doutores da Lei eram cheios de si mesmos e de sua própria importância. E diz: “Por isso eles receberão a pior condenação” (Marcos 12,40). Depois observa os que dão esmolas. Os ricos davam do que lhes sobrava, apoiando-se em seu próprio dinheiro. A pobre viúva deu o que lhe faltava, numa mostra de confiança em Deus. Por esta razão ela é louvada por Jesus e Jesus diz dela: “Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver” (Marcos 12,44). Portanto ela deu mais do que todos, pois a sua oferta foi um ato de confiança em Deus.

O princípio básico que norteia estas leituras é que esquecemos que por mais saúde, mais inteligência, força física, fama e fortuna que tenhamos, nada disso nos deu a vida e nada disso nos dará a vida eterna. Somos absolutamente dependentes de Deus e só Ele poderá salvar-nos para a vida eterna. Não ponhamos nossa alegria nem nossa confiança na fama, na fortuna e nem em nossas capacidades e habilidades pois estas não nos darão vida eterna. Façamo-nos absolutamente dependentes de Deus. Esta doutrina está no centro da mensagem do Evangelho de Jesus Cristo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Dia de Finados

Finados

Sabedoria 3,1-6.9 – Salmo 41 – Romanos 8,14-23 – João 11,21-27

O Dia de Finados está diretamente relacionado à Festa de Todos os Santos. Rezamos e oferecemos sacrifícios para que os nossos falecidos participem da assembléia dos Santos no Céu.

A leitura do Livro da Sabedoria afirma a fé. A morte aparece para os que vivem neste mundo como uma grande desgraça, mas nós sabemos, pela fé cristã, que após a morte começa a nossa verdadeira vida, à imagem e semelhança de Deus. Lembra ainda que “por um breve sofrimento receberão grandes bens. (...) os aceitou como holocausto” (Sabedoria 3,5.6). Isto nos lembra que é pelo caminho da Cruz que se alcança a vida eterna no Céu. Lembra ainda que “os que põem sua confiança no Senhor (...) são dignos de graça e misericórdia” (Sabedoria 3,9). Isto significa que é pela penitência que alcançamos a misericórdia divina. E penitência é arrependimento e propósito de luta contra o pecado.

O Salmo é um canto de plena confiança em Deus que não quer a morte do pecador mas que tenha vida eterna. É uma confissão de desejo de Deus, amado acima de todas as outras realidades. A vida eterna, de fato, é a posse de Deus, para aqueles que desejaram essa posse na terra.

A leitura da Carta aos Romanos lembra a filiação divina que recebemos por meio de Jesus Cristo e o desejo de unir-nos a Deus superando as fraquezas da carne, deste corpo mortal que serve de morada para a nossa alma. Ser-nos-á restaurado como um corpo imperecível a exemplo de Jesus Ressuscitado.

O Evangelho de João é uma parte da narração da ressurreição de Lázaro. Essa ressurreição foi uma mostra do poder de Jesus Cristo sobre a morte, mas Lázaro foi ressuscitado para a vida mortal e depois morreu novamente. Para Marta, a ressurreição que haveria no último dia se apresentava muito longínqua e incapaz de consola-la pela morte de seu irmão. Então Jesus Cristo lhe diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá jamais. Crês isto?” (João 11,26). Então Jesus Cristo traz a Ressurreição mais para perto de nós, pela sua proximidade de nós. A ponto de São Paulo dizer: “Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado no meu corpo (tenho toda a certeza disto), quer pela minha vida quer pela minha morte. Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Filipenses 1,20-21). Tenhamos, pois, toda confiança em Deus que nos dará a vida eterna, se formos fiéis ao Evangelho de Seu Filho.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Todos os Santos

31.º Domingo do Tempo Comum – Ano B – 2009

Apocalipse 7,2-4.9-14 – Salmo 23 – Primeira Carta de São João 3,1-3 – Mateus 5,1-12ª

Todos os Santos

A Festa de Todos os Santos inaugura o mês de novembro. É o último mês do Tempo Comum. Neste mês a Igreja reflete sobre as realidades futuras, que se chamam Novíssimos do Homem. Medita sobre o destino de todas as pessoas que deve ser o Céu ou o Inferno. A Festa de Todos os Santos não é a festa dos santos já canonizados, mas a de todos quantos estão ou estarão no Céu, vivendo a vida em comunhão com a Santíssima Trindade. Nesta festa a Igreja se vê antecipadamente participando da glória de Deus. Por isso, a leitura do Apocalipse nos faz contemplar “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do Trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas (vestes nupciais) e traziam palmas nas mãos (simbolizando a Cruz que portaram na terra)” (Apocalipse 7,9). “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram suas roupas no Sangue do Cordeiro” (Apocalipse 7,14). O Salmo os saúda: “É assim a geração dos que procuram o Senhor” (Salmo 23,6).

A Leitura da Carta de São João nos dá o título de filhos de Deus. Na verdade Deus só tem um Filho, que é Jesus Cristo, a Palavra ou a Sabedoria Encarnada. Nós somos chamados filhos de Deus por causa da nossa união ao Filho Unigênito de Deus, pelo Espírito Santo. Por esta razão esta Leitura diz: “Sabemos que, quando Jesus se manifestar seremos semelhantes a Ele porque o veremos como Ele é” (Primeira Carta de São João 3,2). Na Eternidade não há separação entre Jesus e os que Ele uniu a Ele. Não se deve dizer: “depois de Deus, eu amo mais a Virgem Maria”, pois esta já está plenamente na comunhão com Deus. Não há mais separação. Quando dizemos “Virgem Maria, rogai por nós” estamos dizendo “Jesus, que vives em Maria, intercedei por nós!”. “Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus” (Hb 9,24). “Filhinhos meus, isto vos escrevo para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2,1). Jesus é o Intercessor. Cada um de nós só pode interceder pelos irmãos – e mesmo os santos – pela comunhão com Jesus Cristo.

Finalmente temos o Evangelho. Traz as bem-aventuranças como estão no Evangelho de São Mateus. Os pobres em espírito são os que se sentem pobres, mesmo tendo muitas graças e coisas, porque anseiam acima de tudo possuir Deus e não O possuindo ainda nesta terra, sentem-se pobres. Deles é o Reino de Deus porque amam a Deus acima de tudo. Os aflitos são os que desejam Deus e passam por tribulações nesta vida, participando da Cruz do Senhor, sendo cordeiros de Deus com Ele. Serão consolados porque Deus se revelará a eles e o seu sacrifício não será em vão. Os mansos são os que não conquistam as coisas por sua própria força, mas tudo recebem por graça de Deus, como a Terra Prometida foi dada a Israel por Deus e não pela valentia dos israelitas. “João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu” (João 3,27). Possuirão a terra porque Deus dará a Terra Nova aos que vivem da sua graça e não pela sua própria força. Os que tem fome e sede de justiça são os que desejam que o nome de Deus seja santificado e glorificado, como rezamos no Pai-Nosso e no Magnificat de Nossa Senhora. Esta é a justiça do Evangelhos: ser justos para com Deus e dar a primazia em tudo a Ele. Tudo o que recebemos de Deus não é para nós para ser distribuído com os próximos. Assim a misericórdia que recebemos de Deus nos deve fazer misericordiosos com os nossos próximos, e se assim formos o Senhor sempre terá misericórdia de nós. Os que promovem a paz são os que renunciam a si mesmos para amar até os inimigos, como Jesus diz no mesmo Sermão: “Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5,44-48). O filho é aquele que se parece com o Pai e faz as obras do Pai. Os que são perseguidos por causa da justiça são os que são perseguidos por causa da pregação do Evangelho que nos faz ser justos para com Deus. Estes participam diretamente da Cruz do Senhor Jesus. São muitos mártires, “que alvejaram suas vestes no Sangue do Cordeiro” (Apocalipse 7,14). Estes são também os injuriados e perseguidos por causa do Evangelho. Terão a participação nos bens do Senhor Jesus, em sua Ressurreição. A alegria na dor é o grande paradoxo do cristão, pela esperança que o anima. “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos Céus” (Mateus 5,12a).